Por lentes femininas

Na selva de Hollywood, mulheres não dirigiam filmes.

Do mesmo modo que, para reger uma orquestra ou comandar um navio, a autoridade do diretor não se configurava como adequada à submissão feminina. As mulheres não chegavam lá.

Mas, no cinema falado, duas conseguiram. Foram geniais, não há outro termo.


Dorothy Arzner


Ida Lupino


Elas eram muito diferentes. 

Dorothy Arzner (1897 - 1979), americana de San Francisco.

Primeiro, datilógrafa de roteiros, tornou-se montadora. Depois, filmou algumas cenas de Sangue e areia (Fred Niblo, 1922), com Rudolph Valentino. Terminou assumindo a função de diretora em 1927.

Arzner tinha uma personalidade forte. Nunca escondeu que era lésbica. Teve uma companheira de vida, Marion Morgan, coreógrafa e roteirista.

Dorothy Arzner e Marion Morgan

A Azner foram atribuídas várias aventuras amorosas com estrelas, como Joan Crawford e Katharine Hepburn. Foi ela quem lançou as carreiras de Hepburn, Rosalind Russell e Lucille Ball.





Ida Lupino (1918 - 1995) era inglesa, de Londres.

Foi muito bonita e atriz poderosa. Atuou na Inglaterra e seu talento fez com que a Paramount a levasse para Hollywood.




Tinha formação intelectual ampla, e fortes exigências. Ao recusar de participar num filme (com Ronald Reagan, mas o motivo da recusa não foi esse), em 1942, foi suspensa por ruptura de contrato. Até 1947 ficou observando, num processo autodidático, a edição e a direção de filmes.

Fundou The Filmmakers, companhia de produção cinematográfica, onde pôde dirigir e onde foi também produtora, lutando com energia para obter financiamentos.

Embora diferentes, Azner e Lupino tinham um ponto comum. Seus filmes eram feitos para ganhar dinheiro, está claro, mas eles traziam ao público verdadeiros problemas contemporâneos, indo a contracorrente dos consensos e convenções.

Tomo dois títulos, um de cada diretora: Dance, Girl, Dance (A Vida é uma Dança - 1940) de Dorothy Arzner e The Bigamist (O Bígamo, 1953), de Ida Lupino.

Dance, Girl, Dance  é a mais estranho dos filmes musicais.




Maureen O'Hara, virginal e com vocação para bailarina clássica, se opõe a Lucille Ball, dançarina erótica, gold digger capaz de arrasar o público apenas  com um olhar.




Naqueles tempos da censura  Hays, é impressionante como o filme deixa clara a vida dessas bailarinas sustentadas por homens ricos. E como isso vem com uma completa ausência de julgamento moral.




Há até o momento no qual a hipocrisia moral é francamente atacada. A bailarina clássica consegue um trabalho para se apresentar num teatro de baixo nível, para que sua dança seja vaiada, zombada, ridicularizada.

Exasperada com a situação, ela acaba estourando, e dirige-se ao público assim:

"Continuem, riam, façam valer o dinheiro que vocês pagaram. Ninguém vai machucar vocês. Eu sei que vocês querem que eu arranque minhas roupas para que seus cinquenta centavos valham a pena. Cinqüenta centavos pelo privilégio de olhar para uma garota de um jeito que suas esposas não deixariam vocês olharem para elas. O que supõem que pensamos de vocês aqui em cima, no palco, vendo suas risadinhas imbecis, de que suas mães teriam vergonha? Sabemos que é o momento de se vestirem, virem ao teatro e rirem de nós. Nós riríamos de volta para todos vocês, apenas somos pagas para que fiquem sentados aí. revirando os olhos e fazendo observações tão evidentemente inteligentes. Para que isso? Depois, vão para casa quando o show termina, se exibem diante de suas esposas e namoradas e brincam de ser o sexo mais forte por um minuto? Tenho certeza que elas enxergam a verdade através de vocês, exatamente como nós fazemos"!
Quem quiser ver a cena, clique aqui.


Dorothy Arznar tem energia estilística. Dirige os atores com intensidade, faz avançar a narração, emprega estratégias dramáticas. Ida Lupino tende a saborear as cenas com calma, introduzir ambiguidades nos silêncios. Em The bigamist, no qual a própria diretora faz o papel da "outra" - e Joan Fontaine da primeira mulher - a cena do encontro no ônibus é uma obra-prima de tato e de sugestão.





Design for Living (Sócios no amor, 1933), de Lubitsch ou Marie-Jo et ses deux amours (Marie-Jo e seus dois amores, 2002) de Guédiguian, entre outros filmes, nos contam, em claves diversas, a possibilidade, ou impossibilidade de amores simultâneos.

Mas o frequente, como nos dois filmes citados, é a mulher tendo (ou não) que escolher entre dois homens. Ida Lupino inverte a situação.

Mais ainda. The bigamist não mostra uma relação extraconjugal, mas dois casamentos efetivos. Acrescente-se que o marido é um homem digno, conservando em si os melhores sentimentos. Não é um safado, um salafrário.

O filme não julga pessoas, quer entender os sentimentos. Está no avesso de qualquer maniqueísmo e de modo algum é condenatório. Também não decide o "com quem vai ficar"; na verdade, o ideal é manter a relação dupla.

Edmond O'Brian e Joan Fontaine em "The bigamist" - Citação de Harry Graham, o bígamo: Como um homem pode chamar uma mulher de esposa por oito anos - alguém que você ama e que  o ama  - como você pode ligar para ela e dizerque precisa se divorciar? Pior que isso, que você foi infiel -  que você será pai. Como pode machucar tanto alguém?"

Não sei de outro filme que proponha uma relação amorosa - e marital - tão fora de qualquer ortodoxia. E tal recusa em simplificar, condenar ou acentuar os confrontos,




Por coincidência, os dois filmes têm uma cena de tribunal. E é nessas cenas que as questões principais das relações amorosas são expostas e compreendidas do modo o mais humano.

***

"Quando eu fui trabalhar num estúdio, eu peguei meu orgulho, fiz uma linda bolinha com ele e o joguei pela janela" - Dorothy Arzner,

No set, na cadeira de Ida Lupino, ao invés de seu nome estava escrito "Mother of us all" (Mãe de todos nós".



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