O silêncio de Scheveningen


  




Estive ontem na praia de Scheveningen. Foi lá que pintores como Willem Mesdag, Anton Mauve e Jacob Maris, membros da chamada Escola de Haia, pintaram boa parte de suas obras - uma espécie de floresta de Fontainebleau para os holandeses do final do seculo 19. Fazia frio e, apesar da grande quantidade de pessoas que visitava o lugar, a praia não parecia um destino turístico. Tinha algo de silencioso no ar, um clima oposto ao espírito ensolarado das praias brasileiras que também deve habitar Scheveningen no verão. 

A mais célebre representação da praia foi feita em 1881 por Willem Mesdag, que soube captar esse silêncio com precisão. O Panorama de Mesdag foi feito em uma época na qual pinturas do gênero eram bastante populares. A despeito disso, serviu como um manifesto contra o projeto de nivelar o caminho para Scheveningen e torná-la um resort internacional. Para a façanha de pintar as dezoito telas que formam o panorama em cerca de três meses, Mesdag contou com a ajuda de sua esposa Sientje Mesdag-van Houten, de Bernard Bloomers, de Théophille de Bock e de George Hendrick Breitner (os dois últimos foram próximos de Van Gogh).







Há algo de uma viagem no tempo quando se visita o Panorama de Mesdag. O silêncio local - no qual se incluem o barulho artifical do mar e das gaivotas - transporta o visitante para uma praia que se perdeu, quando ainda não havia o grande hotel Kurhaus, nem o pier e nem a roda gigante. Na pintura, é possível identificar algumas das principais edificações de Haia, como a torre da velha igreja protestante, e de algum modo estar próximo das pessoas daquela época: preciosas miniaturas que parecem levar suas vidas a despeito do que ocorre fora do prédio que abriga a obra. 

Engana-se quem pensar que o panorama de Scheveningen é apenas uma pintura. A obra está para além das pinceladas de Mesdag, Bloomers e Breitner; funciona como uma instalação na qual são imprescindíveis objetos como botas, cordas e baldes, todos espalhados pela areia que se torna pintura conforme se aproxima da tela. De algum modo, um pequeno templo dedicado a uma praia do passado para a qual viajamos por meio do silêncio.

Voltarei a falar sobre Scheveningen e seus pintores nas próximas postagens.



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