Quem faz a história não é a humanidade, mas os historiadores. Essa lei não muda para a história da arte.
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Carlo Crivelli - São Jorge matando o dragão - 1470 - Isabella Stewart Gardner Museum - Boston |
Florença investiu em seu prestígio artístico. Teve um grande arauto no século 16: Giorgio Vasari, que deixou a monumental coleção das vidas dos maiores artistas de seu tempo. Não apenas florentinos, é verdade, mas pondo-os no eixo dos de fato importantes. O resto sendo uma periferia. Daí que o renascimento se tornou, até hoje, toscanocêntrico.
Vasari não menciona Carlo Crivelli, pintor maior. A Encyclopaedia Universalis, nossa contemporânea, sequer consagra a ele um verbete. Até bem pouco Crivelli não teve, de fato, estudo aprofundado.
Crivelli nasceu em Veneza. Com aproximadamente 25 anos, foi condenado à prisão. "Porque", diz a sentença, "enamorado de Tarsia, mulher do marinheiro veneziano Francesco Cortese, raptou-a da casa do irmão de Francesco e a escondeu por muitos meses, tendo com ela relações carnais com desprezo de Deus e dos sacrados vínculos do matrimônio." Cumprida a pena, desapareceu de Veneza, atuando na região das Marche.
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Carlo Crivelli - Santa Maria Madalena - 1476 circa - Rijksmuseum, Amsterdam |
Crivelli nunca mais voltou a Veneza, mas assinava quase sempre com o epíteto "veneziano". Prosperou, ascendeu à nobreza. Seu estilo é profundamente pessoal. Contorno incisivo, cortante, mas de suprema elegância. Amor pela intensidade das cores. Síntese de tradições góticas, de novidades modernas.
E aqui chegamos ao pepino.
Crivelli foi marcado pela cultura paduana. Em Pádua, surgiu um personagem de importância maior - mais ainda muito obscuro - que marcaria o renascimento do norte da Itália, um antigo alfaiate convertido em pintor e, sobretudo, em professor de arte: Francesco Squarcione.
Há apenas duas pinturas conhecidas dele, e nenhum estudo contemporâneo de peso. Squarcione, no entanto, formou Mantegna. Ao seu girão vinculam-se também Cosme Tura - e a escola de Ferrara, além de Crivelli. Em todos eles não é difícil identificar os traços comuns que herdaram do mestre. Squarcione fez uma revolução, trazendo o renascimento das especulações teóricas toscanas para o empirismo da arqueologia. Chastel caracterizou rapidamente essas contribuições: "vontade de emoldurar as figuras em nichos, arcos, edículas pesadas, abundantemente moldadas e entalhadas com festões de frutas e flores vistosas; preferência incessante pelas formas cortantes e angulosas, pelas pedras, pelos corais, pelos metais recortados, e certa propensão ao patético, às figuras dolorosas e gestos violentos". Conclui: "expressionismo nutrido de arqueologia".
Acrescento que ensinava a ornar com guirlandas de belos frutos.
Acrescento que ensinava a ornar com guirlandas de belos frutos.
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Carlo Crivelli - Lamentação sobre o Cristo morto - 1485, Museum of Fine Arts, Boston |
Essas características de Squarcione são facilmente detectadas na Lamentação sobre o Cristo morto, de Crivelli. Ao espírito "expressionista", Crivelli acrescenta seu contorno incisivo e aristocrático.
A Lamentação inventa um mundo abstrato, altamente decorado. Para melhor contradizê-lo, um paradoxo: sobre o fundo de ouro, Crivelli introduz o trompe-l'oeil realista da guirlanda com frutos bem amarradinhos num galho. No meio deles, um pepino.
Outros squarcionescos pintaram guirlandas. Mantegna inseriu pepinos no políptico de San Zeno, em Verona (1460):
Mas Crivelli é insistente: repete seus pepinos, destaca-os, pondo o legume em evidência. Na Anunciação com Santo Emídio (1486, National Gallery, Londres), obra celebrando liberdades que Ascoli Piceno obtivera do Papa, ele está no primeiro plano, em trompe-l'oeil, ao lado de uma verde maçã.
O que esses dois estão fazendo ali, no primeiro plano? A tentação de uma chave simbólica é inevitável. A maçã tem uma, fácil, que tranquiliza: fruto que corrompeu Eva, ela evoca a remissão dos pecados, graças a vinda de Cristo para salvar os homens, por intermediário de Maria. Mas, e o pepino?
Desde Freud que perdemos todas as nossas inocências, e sabemos que um pepino não é apenas um pepino. Se a maçã é o fruto redimido do pecado pelo ventre de Maria, o pepino então seria... o pênis de Deus?
Não sei de ninguém que tenha ousado essa interpretação um tanto ou quanto herética. Mas, enfim, Crivelli criou o sopro divino como raios dourados saindo de nuvens em círculos concêntricos do céu, lá longe, e penetrando na casa de Maria por uma pequena abertura em forma de arco, para se configurar na pomba do Espírito Santo bem perto da moça ajoelhada. Ou seja: visão simbólica, ao mesmo tempo concreta e abstrata. Por que então o pepino não poderia ser uma evidência da sexualidade divina? Inda mais que maçã e pepino aparecem em várias outras pinturas de Crivelli.
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Carlo Crivelli - Imaculada Conceição - 1492 = National Gallery - Londres |
Essa interpretação que arrisco vale o que vale, ou seja, o que valem todas as outras, já que nenhuma fonte textual garante o que quer que seja.
A maravilhosa Madona da Accademia Carrara, em Bergamo (1480 circa) se assemelha a uma verdadeira carta enigmática feita de símbolos vegetais: maçã (duas, uma nas mãos do menino), ameixas, pêssego, cravo, cereja. E um enorme pepino. É impossível não pensar que não exista uma simbologia em tudo isso, mas seria bem imprudente propor qualquer interpretação.
(Lembro, no entanto, o caminho que passa por trás do trono. À direita, tem árvores secas, vegetação escassa. À esquerda, tudo viceja. Ao passar pela Virgem, saímos da era sub lege, e entramos na era sub gratia. Ou seja: antigo e novo testamentos, um que anuncia a vinda de Cristo, outro que é abençoado pela redenção).
(Lembro, no entanto, o caminho que passa por trás do trono. À direita, tem árvores secas, vegetação escassa. À esquerda, tudo viceja. Ao passar pela Virgem, saímos da era sub lege, e entramos na era sub gratia. Ou seja: antigo e novo testamentos, um que anuncia a vinda de Cristo, outro que é abençoado pela redenção).
Só em 2017 apareceu um livro de fôlego sobre Crivelli: Carlo Crivelli e o materialismo místico do quatrocentos. Presses Universitaires de Rennes.
Seu autor é Thomas Golsenne, jovem professor na Universidade de Lille. É livro de grande importância, de enorme erudição e inteligência.
Talvez mesmo inteligente demais. Golsenne segue os passos de Daniel Arasse e Didi-Huberman, que são belos mentores. Mas tem a tendência de interpretar com requintes de sutileza, com bizantinismos que nem sempre convencem, pelo menos a mim. No entanto, ensina muito, e permite refletir.
Golsenne, buscando exemplos históricos dessa prática, conta que os pepinos fazem parte das oferendas que os fiéis levavam naquele tempo aos altares. Não seria um símbolo, mas uma afirmação do artista: o pepino sou eu: "Pela sua utilização repetida do pepino, Crivelli assina ornamentalmente suas obras. Trata-se, talvez, de dizer: eis o que eu, Carlo Crivelli de Veneza, ofereço à Virgem: um pepino, e com este pepino todo meu talento e minha singularidade de pintor."
Pode ser.
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Carlo Crivelli - Madonna della Candeletta - 1492 - Pinacoteca di Brera, Milão |
Fiquei surpreso ao constatar que não aparece na bibliografia de Golsenne um artigo escrito por Carlo Emilio Gadda, em 1961, intitulado "O pepino de Crivelli". É verdade que se trata de um artigo de jornal. Mas, enfim, a bibliografia sobre Crivelli não é assim tão abundante; Gadda é um nome maior da literatura e da inteligência italiana do século 20 e comenta a importante exposição retrospectiva de Crivelli que ocorreu naquele ano, abrigada pelo Palácio dos Doges em Veneza. É curioso inda mais porque Golsenne abre seu livro com um comentário, bastante negativo sobre Crivelli, escrito por outro grande poeta, o francês Yves Bonnefoy, ao visitar a mesma exposição veneziana.
Seja como for, o texto de Gadda é admirável. Aqui um trecho, referindo-se à Madona da andorinha:
"Curiosos, a pera e a maçã da direita e, mais, o pepino que pende à esquerda: aquele pepino que é um pouco a ideia fixa do pintor: uma constante insistida da minúcia realística de um pintor de gênero, como alguém que pensou poder dizer: imagem em todos os lugares surda à ideia de "fruto", à ideia de "guirlanda", à ideia de "trono da Madona no altar" e, no entanto, aboboramente significativa de um humilde camponês oferecendo para adorno do altar, para um ornamento amorosamente trazido do campo paduano, sempre irrigado e solar; e serenamente, pacatamente, aboborífero. Cucúrbitas em pedaços, em novembro ou dezembro, na delicada pobreza das minestras camponesas, pepinos de saladas no verão, dom adequado de pobres, incansáveis hortelãos, que enguirlandam ao lado, ou sobre, o fasto de brocados e do precioso lustro dos mármores no respaldo do trono da Madona: e trazendo as chamas amarelas, douradas, de setembro que amadurece coloquintos, ou seja, abóboras."
Não sei se é necessário, porém lembro que o pepino é um cucurbitáceo, ou coloquinto, mesma família da abóbora. Portanto, pepino e abóbora são primos.
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Carlo Crivelli - Madona da Andorinha - 1490-95 National Gallery, Londres |
Não resisto a mais uma passagem de Gadda, não sobre pepinos, mas sobre roupas: "O manto da Madona, e também este é um típico fato criveliano, torna-se "tema" pictórico por sua vez, enunciado autônomo: como se o artista dissesse: a Madona está vestida de luxo, damasco e braças de brocado, que não faltam no guarda-roupa do céu, onde ela se senta em seu trono de mármore: como seu devoto, devo bem representar, isto é, desenhar, colorir e bordar, e pôr em tecido precioso, e dar-lhe peso e corpo, brocado de damasco: se eu quiser bem merecer dela."
Falta no livro de Golsenne um trabalho comparativo com os colegas de Crivelli saídos do ateliê de Squarcione. Muitas das questões poderiam ser iluminadas graças à relação entre soluções comuns ou divergentes. De qualquer modo, falta uma obra que estude, em profundidade, Squarcione e seu ateliê, talvez partindo deste para reconstituir o tronco que os fez brotar.
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Francesco Squarcione - Madona com menino - 1455 - Berlim, Gemäldegalerie |
Obrigado pelo compartilhamento. É sempre um prazer enorme ler seus textos, tanto pela erudição como pela elegância. Só sinto que Freud não tenha muito a dizer depois dos últimos 20 anos de neurociências (como dizia o grande Nabokov - inimigo ferrenho da psicanálise, é como procurar ninfas e elfos na obras de Shakespeare...), mas os apontamentos que o Sr. faz não deixam de ter sua pertinência. Sem falar na prudência bem vinda de que o Sr. se vale para não cair em excessos interpretativos. Grande abraço!
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