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Ângelo Agostini. Ilustração, publicada em Cabrião, ano 1, no. 18, São Paulo, c.1866. |
A ilustração
de Ângelo Agostini (1843-1910) foi publicada no semanário humorístico Cabrião. Editado pelo próprio artista, por
Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis, Cabrião significa um indivíduo
maçante, que está sempre importunando. Era exatamente o que a edição fazia. Apesar
do tempo de vida curto, o semanário tirou o sono de muitas figuras da política,
da sociedade e até de eclesiásticos ao retratar com inteligência ardilosa a São
Paulo do século XIX (há uma ótima edição fac-símile do Cabrião pela editora da Unesp/Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).
A
cena apresenta um homem vestindo trajes formais, calças, gravata e cartola.
Sentado, ligeiramente de perfil, mira o observador enquanto aponta para o canto
direito. No primeiro plano é acompanhado por caixas com identificações, “Cedulas
para Liberaes”. No segundo plano fileiras de armas organizadas lado a lado. Um
pouco mais acima, um varal com pistolas e espadas suspensas. Uma espécie de
tecido funciona como teto da barraca e uma faixa anuncia gênero do comércio:
“Bazar Eleitoral (não se fia)”, que atua como complemento da
alfinetada produzida pela imagem. E
quando se lê na legenda “voto por aquelle que me der mais á ganhar”, transforma a
charge em tema atual, imediatamente remete ao processo eleitoral que acabamos de presenciar.
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Mario de Andrade. Voto Secreto. Manuscrito, sem data. Acervo Biblioteca Nacional RJ. |
Setenta
anos depois Mario de Andrade escreve um pequeno ensaio sobre o voto secreto (uma versão do texto foi publicada em 1942 em Os filhos da Candinha). O ensaio datilografado encontra-se no acervo
da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, não contém data e apresenta correções
a próprio punho. Transcrevo aqui parte do manuscrito (com a acentuação
contida no documento):
Voto
Secreto
Não sei, todos ficaram entusiasmados porquê as eleições em S. Paulo correram na “maior ordem...” Talvez haja o que distinguir. É incontestavel que juizes, polícia, donos de partidos, e apropria tendencia para a bôa disposição das coisas, que é tão da gente paulista, fizeram com que as eleições terminassem dentro da normalidade remansosa dos nossos monotonos entusiasmos. Isso é incontestavel. Mas pôrem tenho a impressão bastante melancolica de que, si as eleições correram na “maior ordem” prática, nem por isso deixou de ser enorme a desordem mental com que elas se processaram. Voto secreto. É possivel que um dia ainda a gente venha a usar, com direito de propriedade, desse presente subitaneo que nos deram. O presente ficou muito bonito lá pra fora, pra nós podermos falar que tambem no Brasil já se emprega o tal. Mas aqui dentro, por enquanto, êle fez foi despertar ou desenvolver um farrancho temivel de mitos. Uma verdadeira mitomania vae grassando por aí, de varia fórma. Mitomania não sómente no sentido em que as paixões partidárias deformaram, falsificaram, esconderam o instinto natural da verdade. Até neste sentido é que a nossa mitomania atual é mais perdoavel e bonita. Eu me convenci de que todos estão absolutamente convencidos de que estão com a razão. Si perrepistas como peceistas deformaram, esconderam, falsificaram verdades, não fizeram nada disso intencionalmente. Pelo menos em geral. Acreditavam no que diziam ou faziam, ardentemente movidos pelo desejo de salvar (!) o Estado. Infelizmente a salvação se resumiu em criar mitos. E neste sentido é que grassou desastrosamente a “mitomania”. Culpa do voto secreto. Não duvido que a ideologia democratica tenha tido seu valor, lá por 1879, na derrocada das monarquias. Mas hoje, por gasta ou por excessivamente inutil diante das exigencias do tempo, já nem se sabe mais o que é. É um mito, duma largueza aquosa, tão adaptavel ao P. C. como ao P.R.P. O resultado disso é que o voto secreto ainda não conseguiu que adiantassemos um passo sobre 1930. Não se discutiu ideologias, ninguem se dedicou por sistemas, mas por individuos. Novos mitos tambem, estes individuos! Não discuto nem nego o valor de ninguem aqui. Mas os chefes de partidos cujas ideas já não conseguem mais se agrupar em ideologias distintas, se viram guindados a deuses do Bem e do Mal. O chefe que pra uns era mito do Bem, pra outros era mito do Mal. Daí não haver meio termo possivel. Dedicações de fanaticos e ódios erruptivos de apostatas. Digo de apostatas, porquê neste nosso caso incolor de P.R.P. e P. C., constitui verdadeira apostasia deixar um partido por outro, quando ambos tinham a mesma religião! Mas é que ninguem seguiu ideas, seguiu homens. Homens convertidos em mitos pelos seus partidarios. Mitos do Bem e do Mal, da salvação ou da perdição inapelavel.
Embora
o cenário político dos anos pós 1930, apresentasse diferenças se comparado aos dias
de hoje, a crônica torna-se um bom retrato dos nossos últimos eventos
eleitorais. Em tempos que o voto secreto não é novidade e assegurado por lei,
as mídias sociais parecem fazer o serviço de desvelar a opção política das
urnas. O uso do termo “mito”, que reapareceu na recente eleição não era novidade
e é parte de uma importante crítica elaborada por Mario de Andrade. O dicotômico
embate entre o “Bem” o “Mal”, se repetiu nos debates atuais. A ausência
de discussões centradas nos programas de governos e direcionadas aos indivíduos
também se repetem “Não se discutiu ideologias, ninguem se
dedicou por sistemas, mas por indivíduos”.
Nuca foi tão adequada a imagem de um bazar para apresentar os embróglios eleitorais recentes.
O que sei, é que fui a minha seção para votar, mas achei a porta fechada e a urna na rua, com os livros e ofícios. Outra casa os acolheu compassiva; mas os mesários não tinham sido avisados e os eleitores eram cinco. Discutimos a questão de saber o que é que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o problema, a charada, a adivinhação de segunda-feira. Dividiram-se as opiniões; uns foram pelo ovo, outros pela galinha; o próprio galo teve um voto. Os candidatos é que não tiveram nem um, porque os mesários não vieram e bateram dez horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso: Sara, belle d’indolence, Se balance Dans un hamac... (Sara, bela indolente, se balança em uma rede...)*
*Machado de Assis. Sobre a grande abstenção nas eleições 1892. Gazeta de Notícias, de
24 de abril de 1892.
Seria o caos eleitoral retratado por Machado de Assis, com deboche e humor, tão distinto de hoje ?
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