Rafael Sanzio

Rafael - Ressurreição -  1499/1500 - MASP - São Paulo



Uma jornalista da Folha fez algumas perguntas para mim, a respeito de Rafael. Ela usou apenas uma ou outra frase do que eu respondi, e pensei que talvez alguém se interesse em ler as respostas completas, que aqui estão.

Rafael - Spozalizio - Brera - Milão - 1504



1 Quais você considera, são as maiores contribuições de Rafael  para a história da arte?

Rafael está no cerne das mudanças que ocorrem no início do século XVI, e que constituíram o assim chamado renascimento clássico – momento em que grandes artistas se transferem de Florença para Roma. O renascimento florentino, que se elabora ao longo do século XV, era abstrato, no sentido de que concebia o mundo visível a partir de uma visão intelectual, baseada no desenho, instrumento da racionalidade e, naturalmente, na geometria. Transpunha o sensível para o inteligível e não se interessava pelos dados imediatos da sensibilidade. É, assim, uma arte depurada, nítida, sem atmosfera, sem pulsões dirigidas diretamente aos sentidos. Leonardo trouxe a percepção sensível da atmosfera; Michelangelo a forte expressividade plástica. 


Rafael - As três Graças - Chantilly - Musée Condé - 1504/5


Rafael obteve uma síntese perfeita, inédita, equilibrada, entre valores intelectuais e plásticos, sensíveis e inteligíveis, abstratos e sensuais, resolvidos numa síntese de harmonia e de beleza. Beleza é uma palavra chave para se entender Rafael, o que parece um paradoxo, mas não é.


Rafael - Madonna del Prato -  1506 - Kunsthistorisches Museum, Vienna


2.  Quais são algumas das características mais marcantes da obra de Rafael?

O princípio de uma síntese perfeita, em que os elementos anedóticos são eliminados em benefício do todo. A iluminação homogênea, mas filtrada pela atmosfera. A força temperada pelo encanto. O desenho presente, mas suavizado e não imperativo. O equilíbrio sem rigidez. A síntese harmônica mais justa.

Rafael - A escola de Atenas - Vaticano - 1509


3.  Além de incorporar alguns traços estilísticos de seu mestre, Pietro Perugino, estudiosos afirmam que ele também aprendeu técnicas analisando obras de Da Vinci e de Michelangelo. Que marcas desses dois artistas transparecem no trabalho de Rafael? E quais as maiores diferenças entre as obras desses três artistas?

Não foram apenas esses mestres que incidiram sobre a arte de Rafael. Uma de suas características fundamentais era o modo como incorporava tudo o que de novo e de pertinente descobria nos outros, integrando esses elementos no seu processo de síntese tão característico. Gosto de compará-lo nesse ponto com outros artistas que possuem o mesmo modo criador, como Manet ou Picasso (com perdão pelo anacronismo), que inventam ao incorporar o que vem de fora.


Rafael - O profeta Isaías - Chiela di Sant'Agostino  - Roma - 1511/12


4.  O acadêmico Robert Williams começa o livro “Raphael and the Redefinition of Art in Renaissance History” dizendo que Rafael era considerado o maior pintor de todos os tempos por ao menos 300 anos depois da sua morte –o sr. também afirma naquele texto que encaminhei por aqui que ele foi, por muito tempo, o modelo mais acabado de classicismo. Antes do século 19, ele chegou a ser considerado maior que Da Vinci e Michelangelo?

Em certo sentido, sim. Era o pintor por excelência, o mestre a ser seguido. Era o modelo para os aprendizes pintores. Considerava-se Michelangelo, com sua poderosa individualidade, como “perigoso” para iniciantes, que poderiam tornarem-se epígonos, seguidores esmagados pela força do modelo. Leonardo era visto como sedutor, mas misterioso. Enquanto Rafael propunha as próprias chaves da beleza: quem o seguisse não seguia um indivíduo, mas um universal.

Rafael - Retrato de Bindo Altoviti - Washington - National Gallery




5.  Ao mesmo tempo, Da Vinci e Michelangelo parecem estar muito mais entranhados no inconsciente coletivo (e na cultura pop) do que Rafael quando se fala em Renascimento. O que explica isso?

Sem dúvida. Isso se explica sobretudo pelo declínio dos poderes contidos na ideia de beleza e de harmonia, contidas nas obras de Rafael. Esse declínio ocorre desde o final do século XVIII. Além disso, Rafael era o modelo indiscutível das escolas e academias, o mestre contra qual se revoltar. Desde o final do século XVIII ocorrem movimentos de contestação “primitivistas”, ou seja, de pintores anteriores a Rafael, chamados justamente de primitivos. A arte deixou de pautar-se pela beleza, preferindo a expressividade, o choque, o abalo, ao invés da sublime harmonia sutil.


Rafael - Madona Sistina - Gemäldegalerie, Dresden - 15013/14


Acrescento um texto sobre Rafael, que escrevi para a Folha, há 18 anos...

São Paulo, domingo, 03 de fevereiro de 2002 
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Ponto de fuga

A arte como belezaJorge Coli
Especial para a Folha
Rafael, o pintor dos pintores, o maior que jamais existiu, divino Rafael: "Quem possui tantos dons raros como Rafael de Urbino", escrevia Vasari, "não é simplesmente um homem, mas um deus mortal". Concentrando, em suas obras, o equilíbrio, a harmonia sem falha, ele determinou a concepção mais acabada do classicismo, no interior do Renascimento.
Modelo máximo para os artistas que lhe sucederam, sua presença foi se tornando tão pesada que, a partir do século 19, brotaram movimentos de contestação. Os "pré-rafaelismos", isto é, os nazarenos, os pré-rafaelitas ingleses e todos os retornos às formas arcaicas ou primitivas da arte se acentuaram mais e mais, levantando-se contra o suave mestre. Terminaram por destroná-lo. A ponto que, hoje, Rafael é mais ou menos apenas um nome, associado vagamente a Madonas e à Escola de Atenas, reproduzida em toda a parte. O gosto passou a preferir temperos mais fortes; produzir o belo deixou de ser o supremo objetivo das artes, voltadas agora para forças expressivas, para impactos, mistérios, estranhezas. A harmonia límpida de Rafael foi banalizada por olhares distraídos.
Há tempos que uma exposição não era dedicada ao pintor. O Museu do Luxemburgo, em Paris, expôs, na recente mostra "Rafael, Graça e Beleza", uma dúzia de quadros, se tanto. Mas é já um paraíso. Reprodução nenhuma transmite o que essas telas oferecem. Nada jamais será capaz de substituir o delicado acorde de ouros e azuis na "Dama do Unicórnio", em que o céu, no fundo, parece vazar à volta das pupilas.
Humanismo - O mais belo retrato masculino que alguém já tenha pintado deve ser o de Baldessar Castiglione, trazido para a exposição "Rafael, Graça e Beleza". O artista e o modelo eram amigos. Castiglione escreveu "O Livro do Cortesão", em que disserta sobre o ideal de comportamento para o homem da Renascença. Rafael, em sua arte e em si mesmo, encarnou esse arquétipo.
Castiglione empregou uma palavra, "sprezzatura", para definir a qualidade mais alta a ser cultivada: uma justa desenvoltura nos atos, em que elegância, sutileza e encanto devem ser incorporados no interior do gesto espontâneo; devem surgir, como afirma, "quase sem pensar".
"Si po dir quella esser vera arte che non pare esser arte", ele escrevia, ou seja, pode-se dizer que é verdadeira arte aquela que não parece ser arte. Nisto se encontra a "graça" do cortesão -e a graça superior contida nas telas de Rafael. Castiglione ensinava que o pior defeito é a demonstração de esforço em qualquer ação. Tudo deve parecer próprio e natural, do contrário descamba para o afetado e o postiço. Não que o esforço seja condenável. Mas ele não deve nunca transparecer nos resultados.
Evidência - Os quadros de Rafael são raros, muito preciosos, e nem todos os museus se dispuseram a empréstimos: os curadores da mostra tiveram que se contentar com o disponível. Em tentativa de enriquecê-la, acrescentaram astúcias de montagem, muito vulgares, destinadas a "fazer efeito". A iluminação buscou um clima dramático, mas descuidou das telas, por vezes projetando a sombra das molduras sobre a imagem. Não importa: Rafael resistiu a tudo.
Amor - As Madonas de Rafael são carnais e humanas. Ele amava a sensualidade feminina. O foco, na mostra parisiense, foi a reunião, pela primeira vez, da "Fornarina" e da "Donna Velata", relançando o velho debate: seriam ambas o mesmo modelo? A "Donna Velata", suntuosamente vestida, envolve-se numa quase penumbra. A "Fornarina", que teria sido amada por Rafael numa paixão cuja força o impedia de trabalhar, oferece a nudez dos seios sob luz nítida. Uma das mãos repousa entre as pernas, a outra, como numa carícia, quase toca um mamilo. A região do umbigo pulsa, erótica, sob a transparência de um véu. No braço esquerdo, há um bracelete azul e, nele, a inscrição em maiúsculas douradas: RAPHAEL URBINAS. Mais do que uma assinatura, é, antes, a marca de uma posse.

Rafael - La Fornarina - Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma - 1518/19

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