Beyoncé no Louvre

Aprendi muita coisa com o clip de Beyoncé no Louvre.



Eu só conhecia o nome de Beyoncé e sabia que ela é uma cantora muito famosa. A música do clip foi a primeira que eu ouvi dela. Descobri que seu parceiro se chama Jay-Z e que é, ele também, muito famoso e muito rico.

O mundo da história da arte me é mais familiar. É por isso que me atrevo a comentar esse clip.

Tudo começa de modo enigmático, à noite. Um anjo, ou um gênio, vestido com calças jeans, de cócoras, nos recebe ao som de ruidos urbanos distantes e de um sino. Como se uma cerimônia fosse começar.


Esse tom misterioso pontua o vídeo, seja transformando os dançarinos em sombra:


seja penetrando nos bastidores do museu, em lugares  em que ninguém vai.


Porém, logo depois do início, surge a pintura de Delacroix que decora o teto da galeria de Apolo. Seu título é Apolo vencendo a serpente Píton. Píton é a noite, a escuridão; Apolo é o sol, a luz. 


Em seguida, aparecem obras, mas nunca em suas integridades. É um modo também misterioso de nos pôr em contato com elas. As duas primeiras imagens mostram apenas isto:



E a Virgem da almofada verde, pintada por Andrea Solario, jamais será vista no seu todo.


Está clara a vontade de intrigar por meio de fragmentos. Que pertencem a uma pintura longe de estar entre as mais célebres daquele museu.
Certos closes radicalizam, e fazem captar uma intimidade visual implausível feita de manchas, de pinceladas, de cores.

 

Esse modo de abordar pelo detalhe fascina. Nenhuma obra será mostrada por inteiro, ou sem perturbações. Não estamos no Louvre para uma aula, mas para uma sedução íntima.

Insinuam-se relações sugestivas entre os participantes do clipe e o acervo do museu. Para mim, a mais bela é esta:


A mais comovente, para mim, é a sucessão, pela montagem, do enlace entre Paolo e Francesca, no quadro de Ari Scheffer, e a aproximação afetiva de um casal.

 


Há um momento em que vários jovens perfilados levantam o braço direito para o alto. Eles retomam os gestos nobres das obras neoclássicas que significavam solene juramento. Este gesto, depois, tomou nova e péssima  significação, graças a nazistas e fascistas. Como se o diretor do clipe estivesse atento a essa transformação, os jovens de braço erguido não mostram a mão espalmada, mas o dedo indicador apontando para a noite.
 


A associação mais espetacular é a roupa soberba de Beyoncé cujas dobras contagiam-se com o magnífico impulso da Vitória alada de Samotrácia.



O casal está vestido de branco junto ao branco mármore clássico. Todo o espírito do vídeo, nas poses, nas danças, é apolíneo e clássico. Nada de descontrole dionisíaco ou, apenas, talvez, um rápido instante, que surge como uma pontuação engraçada. No mais, tudo é ordenação e harmonia. 

As bailarinas são regradas pelas paralelas exatas da grande escadaria:

 

Ou são dispostas, com rigor, repetindo de modo controlado os mesmos passos, diante da Sagração de Napoleão, pintada por David. Estão em frisa, como os personagens dentro do quadro enorme.


Ou, perfiladas em frente à Vitória de Samotrácia, elas se alinham em coreografia também rigorosa:



A beleza de Beyoncé vem comparada à beleza da Vênus de Milo.


Narcisismo? Não creio. Beyoncé e Jay-Z deixaram de ser espectadores das obras: magníficos, soberbos, semideuses, eles próprios se tornaram obras também.


Um casal negro é obra como as obras. O clipe introduz, sem insistir, imagens de negros que estão nas pinturas.

As costas magníficas pintadas por Géricault no topo da pirâmide humana juntada n' A balsa da Medusa.


Os negros presentes em As bodas de Caná, de Veronese:


E a obra-prima pintada por Marie-Guillemine Benoist, aluna de David.


Procurei pelo nome do diretor do clipe, encontrei dois diferentes. Fiquei perdido e acabei sem saber: quem souber me ajude. Em todo caso, seja quem for, fez um trabalho notável.

Procurei também a letra da música. Ela é feita de associações mais ou menos livres, mas sublinham a vida privilegiada que os cantores possuem: Lamborghini, jatinhos G8, diamantes, Alexander Wang (estilista do qual eu desconhecia absolutamente tudo, e agora sei o nome). Têm consciência do que são: "Hang one night with Yoncé, I'll make you famous". Cultura bling-bling que soube ser profunda neste clip.

Muito simpáticas as frases de espanto e agradecimento, diante do próprio clip (suponho):

"I can't believe we made it (this is what we made, made)
This is what we're thankful for (this is what we thank, thank)
I can't believe we made it (this a different angle)"

Há uma sequência muito célebre de visita ao Louvre na história do cinema. Está no filme Bande à part, de Godard (1964). Sami Frey e Anna Karina desembestam pelo museu, numa crítica à cultura superficial de nosso tempo. 




O clipe de Beyoncé e Jay-Z não critica nem denuncia: funde-se com o grande museu numa homenagem. Estimula o olhar e a inteligência. Convida à beleza das obras.




Comentários

  1. Lindíssima abordagem. Espero que SHEILA leia e aprenda!

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  2. Esse clipe é na vdd uma critica ao apagamento do negro na arte. A propria letra fala disso. No mais sua abalise esta otima. :*

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    1. Sobre essa questão, vale conferir este vídeo, que contextualiza a carreira da Beyoncé e sua questão com o Grammy (assim como a de outros músicos negros)
      : https://www.youtube.com/watch?v=G7XxbaMKmLs

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    2. Will, o vídeo que você indica não me convence nada em relação ao Louvre. Não consigo ver nele crítica alguma. A articulação do clip com o Grammy não se sustenta. A não ser que se diga: Beyoncé foi ao Louvre para esfregar na cara do Garmmy, o que me parece muito pouco. Como não entendo de Beyoncé, é preciso falar de museu. O Louvre é um museu de arte européia. Há em Paris o museu Branly, que é de artes não ocidentais, prestigioso e muito grande. Beyoncé não foi lá buscar cultura africana. Ao contrário, percebo fusão e integração entre Beyoncé, Jay-Z e os outros nos parâmetros das artes européias: um desejo forte de integração. No texto da canção, as citações de prestígio (Philippe Patek, Lamborghini, etc.), são sonhos de consumo da cultura ocidental. O penteado, feito no Louvre, revela mais a elegância presente em todo o vídeo, que se harmoniza com a elegância e beleza das obras de arte. As bailarinas, em frente à Sagração de Napoleão nada têm de desrespeitoso ou contrastante. A própria disposição em frisa se integra no quadro. Creio que a leitura não tendenciosa do vídeo não consegue justificar uma interpretação crítica. Que, em outros lugares, Beyoncé tenha sido militante, etc., não discuto, porque não conheço. Mas o Louvre ganhou com o vídeo, por causa da beleza como é mostrado. e Beyoncé também, porque associou-se às grandes obras de arte. I can't believe we made it !

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  3. „Narcisismo? Não creio. Beyoncé e Jay-Z deixaram de ser espectadores das obras: magníficos, soberbos, semideuses, eles próprios se tornaram obras também.“
    A meu ver, aqui se trata de um narcisismo patológico de Beyonce e Jay-Z. Eles criam um Louvre para si. Ali encontraram o perfeito espaço para vender para um público servil como são „únicos e todo-poderosos“. Nas imagens do vídeo e na letra da música, vemos a vil tentativa de ambos de exercer a desejada onipotência. Exaltam a própria imagem, colocam-se no mesmo patamar daqueles que são intocáveis, incomparáveis. Mas Beyonce e Jay-Z têm este olhar sobre si: são intocáveis e incomparáveis!
    Com todo respeito Sr. Coli, mas em sua análise parece-me que Narciso 1 e Narciso 2 encontraram o que procuravam: Um Narciso 3!

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    1. Controle c e controle v novamente Dea F.
      Não consegue fluir nas próprias atribulações?

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  4. Jorge Coli, considerando-se a sua preferência e de acordo com o seu entendimento, a mais bela relação sugestiva entre os participantes do clipe e o acervo do museu [1], contextualmente/esteticamente, relaciona-se à obra: (i) "Portrait de madame Récamier" — uma das socialites mais famosas do início do séc. XIX —, de Jacques-Louis David [2 e 3]; (ii) "Portrait d'une femme noire" (ou "Portrait d'une négresse"), de Marie-Guillemine Benoist [4] — o "gran finale" do videoclipe; ou (iii) "La mort de Marat" (ou "Marat assassiné") — obra-símbolo da Revolução Francesa —, de Jacques-Louis David [4]?

    [1] URL: https://1.bp.blogspot.com/-76wN1iM--WA/WzqlxOls6uI/AAAAAAAA0Bo/rmhdGPSWEuYqVHRAHviaNfc4So9PIMggwCK4BGAYYCw/s1600/Imagem10.png
    [2] URL: https://fr.wikipedia.org/wiki/Portrait_de_madame_R%C3%A9camier
    [3] URL: https://en.wikipedia.org/wiki/Juliette_R%C3%A9camier
    [4] URL: https://fr.wikipedia.org/wiki/Portrait_d%27une_femme_noire
    [5] URL: https://fr.wikipedia.org/wiki/La_Mort_de_Marat
    [6] URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Marat

    P.S.: obrigado por ter aceitado a minha solicitação no Facebook.

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    1. Em "[...] de Jacques-Louis David [4]?", leia-se "[...] de Jacques-Louis David [5 e 6]?".

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