O que esperar de uma retrospectiva? František Kupka no Grand Palais


A pergunta é simples: O que esperar de uma retrospectiva, de uma boa retrospectiva? Por um lado, parece claro objetivar acerca de obras representativas de diversos momentos da carreira de um artista. Neste ponto preciso o Grand Palais conquista êxito e louros. Por outro,  um passo adiante. É preciso problematizar, propor aspectos novos, fugir das rápidas noções fáceis que por ventura dominam a cena e as repetições sobre um determinado artista.



Terminou no último dia 30 (julho/2018) a exposição Kupka: Pionnier de l’abstraction. Cerca de 300 obras do artista checo passeiam por temas, técnicas e controvérsias dos caminhos do modernismo do qual Kupka foi partícipe. Certo, uma retrospectiva de grande calibre sobre o artista é rara, mesmo na França, a última data de 1989 no Musée d’art Moderne de Paris, e menos expressivo do ponto de vista do número de obras agora apresentado pelo Grand Palais.



O título da exposição faz referência não a um caminho, mas um ponto certeiro da carreira de Kupka: o pioneiro da abstração. Embora não fique explicito o caminho, é sugerido um avanço estilístico gerado na abstração: voltaremos a este ponto.

Seu autorretrato de 1905 recebe os convidados. Dedos firmes seguram com precisão seu instrumento. Desvia seu olhar para o observador, o encara seriamente. O braço esquerdo apoiado na cintura empurra o cotovelo em nossa direção. O rigor estruturante da tela deixa entrever a energia das pinceladas, seja nas camadas coloridas que formam a epiderme ou nas camadas geométricas e rítmicas na parte superior à direita. A obra estática gravita pelo olhar do artista, o rastro das costas em movimentos frenéticos contraria essa imobilidade. Ao lado, uma obra posterior, anuncia ao visitante o percurso: Madame Kupka nas verticais, 1910,1911. Entre um jogo poderoso de linhas coloridas vemos o rosto de uma mulher, olhos profundos. Seria possível afirmar que essas verticais escondem ou mostram roupas etc. dessa mulher. Inútil tentar, cabelos ou chapéu, vestido ou apenas traços.


Autorretrato. 1905.


Madame Kupka em verticais. 1910-1911.




Essa aproximação entre momentos diversos de Kupka não apareceram na exposição, senão neste cartão de visitas. Como um aviso.

Há força nas obras simbolistas e elas ocupam boa parte das salas de exposição. Meditação de 1899 mostra um homem, o próprio artista, posto nu e olhando para baixo. Olha para as águas, e assim para o seu próprio reflexo. Um narciso moderno. O reflexo da figura masculina não temos, mas das montanhas em uma estrutura poderosa.


Meditação. 1899.


O dinheiro de 1899 exibe uma iconografia bem sedimentada, em especial no final do século XIX, a relação do dinheiro e do corpo, ou do desejo do corpo. O velho com suas moedas de ouro em um grande círculo transparente cobrindo o seu sexo, e as carnes opulentas da mulher a sua frente.

O dinheiro. 1899.



A exposição não se furta em exibir a presença de Kupka nos trabalhos com a imprensa, notadamente L’assiette au Beurre.



E suas obras próximas ao estilo de um Van Dongen.

O vermelho dos lábios, 1908.

O gosto de Gallien (Cantora de Cabaret) 1909-1910.



Interessante a estratégia um pouco fácil da passagem para os motivos abstratos. A exposição, neste momento, encara como um novo patamar algo transcendente e o espectador passa por um “portal” para chegar finalmente naquelas obras.




Um artifício corrente, não problematiza as obras de Kupka, neste aspecto, apenas as insere onde sempre estiveram e a “evolução” de suas formas.

É possível afirmar a força de suas telas abstratas, tanto quanto como ele perde energia em relação a suas outras obras, em especial àquelas do final do século. Kupka se mantém como um caso interessante e importante do início do século XX. Suas investidas em temas geometrizantes e estruturais, logo remetem, como sinalou a exposição, a sinais arquitetônicos, abstratos de raiz assertiva, geométricas.

Discos de Newton.1912.

Seja como for, uma exposição de formação e de conhecimento frente a um artista conhecido, mas pouco badalado como seus pares naquele momento. A fotografia que encerra a exposição faz a relação não proposta nas salas, a mistura e organicidade das obras de Kupka. Sentando diante de três telas de momentos bem diversos o artista vê suas obras conversarem ali, solitárias em preto e branco, sem aparecer na exposição.




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