O som do clique: marionetes, Carlos Gomes e programas sinfônicos

No alto da escada, quem recebe são Joséphine Baker e Maurice Chevalier.


Chevalier, com seu chapéu-palheta, o beiço e o queixo que avançam; Baker com seus maravilhosos olhos tristes. São grandes marionetes que moram no "Civico Museo Teatrale" de Trieste.

O museu, porém, é consagrado sobretudo à música de concerto e a ópera. Acervo muito rico de testemunhos e documentos dos artistas que passaram por Trieste.

No acaso da visita: um retrato vibrante de Gino Marinuzzi, maestro wagneriano que galvanizava a orquestra. O pintor é Gino Parin, judeu, maravilhoso artista deportado em 1944, morto no campo de concentração de Bergen-Belsen.



Há muitas roupas de cena, daquelas que os cantores de ópera mandavam fazer e usavam sempre, fosse qual fosse a produção. Nos anos de 1960, o figurinista Mario Giorsi desenhou este traje de Azucena (Il Trovatore, de Verdi) para Fedora Barbieri.



Espantosa, a qualidade de acabamento dos adereços, das jóias que eram usadas no palco.

 

Estes foram destinados ao Faraó, na Aida, de Verdi. Datam do início do século XX. Abaixo, em detalhe.


Tive um momento de pequena felicidade, quando encontrei esta foto de Mario del Monaco numa vitrine.



Ora, na etiqueta, apenas o papel de Canio, no I Pagliacci de Leoncavallo vinha identificado. Na outra, de número 3, nada.



Eu pude então, ao sair, deixar com a senhora da recepção, um bilhete no qual informava que Del Monaco, na fotografia, encarnava o papel de Pery, na ópera Il Guarany de Carlos Gomes, que ele cantara no Rio de Janeiro, em 1947. E que seu traje de índio havia sido concebido por sua esposa, Rina Fedora Fillipini. Quando abri a porta para a rua, ouvi a senhora que comunicava com empenho à diretora do museu o meu recadinho, mencionando a ópera "Il Guarány", com tônica no a. Pouca coisa, mas que me deixou feliz.

Numa sala especial, o esboço do monumento a Verdi, de Trieste (1905), pelo escultor Alessandro Laforêt. Esse monumento em bronze foi bombardeado pelos austríacos durante a primeira guerra mundial e refeito com o metal dos canhões tomados aos mesmos austríacos. É uma imagem particular de Verdi, muito simpática, em que o grande gênio parece à vontade, sem pose, cerimônia ou heroísmo.



Alguns cartazes históricos me chamaram a atenção pelos programas. Um, de Furtwängler, com a Filarmônica de Berlim, de 1941 - talvez fruto de algum acordo de colaboração cultural entre a Itália e a Alemanha:


É denso, com o D. Juan, de Richard Strauss (em italiano, Don Giovanni!), o concerto de Brandenburgo nº 5, de Bach, com o próprio Furtwängler ao piano, e a Sinfonia nº 1, de Brahms.

Outro, é de um concerto em que De Sabata dirige a Orquestra do Scala em 1952. O programa é original, organizado de maneira à qual hoje não estamos habituados, já que o formato dos concertos quase não sai de, primeiro, uma abertura de uns 10 minutos, uma peça maior, intervalo, e uma sinfonia ou obra mais longa no final.



A sequência se inicia com a Passacaglia, de Bach, orquestrada por Busoni. Belo portal clássico.  Depois, o delicioso e breve poema sinfônico de Stravinsky, O canto do rouxinol, que o compositor extraiu de sua ópera O rouxinol: partitura brilhante, delicada, cheia de humor.

Em seguida, uma obra que dá sentido simbólico ao concerto. Composição recentíssima, estreada poucos meses antes da apresentação de De Sabata em Trieste, ela é uma espécie de "mea culpa". Pizzetti fôra um fascista militante, inscrito no partido. Essa obra intensa, em que se ouvem evocações militares e se encerra de maneira dramática, evoca, 7 anos depois da segunda guerra mundial, a tremenda tragédia e anuncia, pelo seu título, novos tempos:  Prelúdio para um outro dia. 

A maravilhosa felicidade de Daphnis et Chloé -  Suite 2, que se abre justamente com o amanhecer de nova jornada, num mundo de paz em que passarinhos cantam, completa o simbolismo da primeira parte.

A segunda se abre com a dionisíaca Sinfonia nº 7, de Beethoven., mundo de embriaguez otimista, e se conclui com a força libertária da abertura da ópera As vésperas sicilianas, de Verdi. Grande e significativo programa.

Enfim, Celibidache, com a Filarmonica triestina compõe um maravilhoso concerto em ordem inesperada.


De novo a enérgica Sinfonia nº 7, desta vez como primeiro número. 
Intervalo.
Vem, em seguida, Le tombeau de Couperin, composição ligada aos sofrimentos de Ravel durante a primeira guerra mundial, à morte de seus companheiros de armas, de sua mãe e criada num momento de profunda depressão. Mas esse Tombeau é alegre, elegante, dançante; Ravel se explicou: "Os mortos já são tristes o bastante no seu silêncio eterno". A Suite em Fa de Roussel prolongou esse clima de homenagem à música francesa do século XVII e XVIII, que Ravel havia introduzido. E tudo se termina com a abertura de Tannhäuser de Wagner! 

Bem que os maestros de hoje poderiam mostrar invenção e originalidade semelhantes ao compor seus programas!

Comentários