Walter Salles e Stanley Kubrick (ou, Central do Brasil e O Iluminado)



Central do Brasil, de Walter Salles, fez 20 anos. Foi lançado em 3 de abril de 1998. Em 2018, com cópia restaurada em 4K, o filme será exibido na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Eu então me antecipei e revi o filme esta manhã em casa. Continua extraordinário.

Walter Salles vem de uma família de banqueiros - sua família detém o controle acionário do holding Itaú Unibanco, e sempre está na lista dos maiores bilionários do país. Contudo, é no cinema que encontrou seu lugar (guardada as devidas proporções, faz pensar em Luchino Visconti, descendente de família nobre de Milão, pai Duque e mãe herdeira de uma grande empresa farmacêutica). Em conjunto com o irmão João Moreira Salles, criou em 1987 a VídeoFilmes, empresa focada na produção e distribuição de filmes. Walter dirigiu então suas primeiras produções, sendo elas a série Japão - Uma Viagem no Tempo, em 4 partes; Drajcberg - O Poeta dos Vestígios, sobre o Polonês naturalizado brasileiro Franz Krajcberg; Marisa Monte, registro de show com bastidores; e Chico - O País das Delicadeza Perdida, sobre os 25 anos de carreira de Buarque. Todos eles entre 1986 e 1989.

Em 1991 ele se aventura pela primeira vez no cinema ficcional, adaptando o complexo best-seller policial de Rubem Fonseca, A Grande Arte. O filme é muito ruim, confuso e frouxo. Foi lançado em VHS, mas nunca em dvd. Salles faz questão de nunca falar sobre ele. Seu filme seguinte só viria em 1995: Terra Estrangeira, co-dirigido por Daniela Thomas, se passa na era Collor, com seus jovens contrabandistas em terras portuguesas. O cinema brasileiro passava por um período cambaleante, ainda catando os cacos do fim da Embrafilme, enterrada em 1990. Terra Estrangeira ficou marcado como um dos pilares da chamada Retomada - e é ainda hoje um filme lindo.



Em 1996 lança o curta Socorro Nobre, sobre uma presidiária - Maria do Socorro Nobre - que envia uma carta ao artista Franz Krajcberg. É a partir desta história que ele desenvolveria sua produção seguinte, Central do Brasil. Um grande sucesso de público e crítica, concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro (perdeu pro A Vida é Bela, do Benigni) e Montenegro ao de atriz (perdeu pro embuste da Gwyneth Paltrow), e ganhou o urso de ouro em Berlim.

Todo um país carente de imagens enfim se via na tela.

Maria do Socorro Nobre é a primeira personagem a aparecer.




Há belas composições nesse filme de estrada que corta o país de sul a norte.










E duas sequencias impressionantes pela beleza e profundidade. O encontro com o caminhoneiro feito por Othon Bastos, e a da romaria em Bom Jesus do Norte.




Salles é um diretor das emotividades, e o faz com honestidade, sem ser brega. Há uma busca do Brasil real, ou Brasil profundo, que seja, um cinema social que o alinha com o projeto geral do Cinema Novo - embora mais humanista e menos político. Há contudo, uma crítica recorrente à sua obra: a de que ela é limpinha demais. Como se o playboy mauricinho, ao sair de seu castelo pra filmar o mundo real, tentasse polir a realidade, retirando-lhe a sujeira. Em Central do Brasil, há sobretudo uma cena assim:


  
Quando Dora e Josué encontram e pegam carona com um grupo de romeiros, estes estão usando roupas muito limpas e brancas. Em contraste com os dois - com suas roupas rotas e encardidas - o branco dos romeiros reluz. Mas acho tranquilo, já que essa é gente com muita fé, que se desloca para um local que consideram sagrado. Normal usarem suas melhores roupas. Em seu filme seguinte, Walter parece ter tentado fugir disso emporcalhando ao máximo seus atores.

Num engenho de cana em 1910, sertão brasileiro. Esse é o cenário de Abril Despedaçado.



Bem, a essa altura você leitor provavelmente está se perguntando, "mas o que diabos tem a ver Salles e sua obra com Kubrick, talvez o maior diretor da história?". Enfim, em 2018, além dos 20 anos de Central, temos a comemoração dos 90 anos de nascimento de Stanley Kubrick, falecido em 1999, aos 70 anos. Após 3 documentários curtos e um longa de estréia que ele sempre rejeitou - Medo e Desejo, de 1953 - Stanley emplacou 3 filmes brilhantes: A Morte Passou por Perto, de 1955; O Grande Golpe, de 56; e Glória Feita de Sangue, em 57. O astro deste último, Kirk Douglas, impressionado com o jovem, o chama para assumir a direção de Spartacus, lançado em 1960 com grande sucesso. Com boa relação com os estúdios, solidificou a carreira e criou uma sequencia de obras primas: Lolita em 1962; Dr. Fantástico em 64; 2001: Uma Odisséia no Espaço, em 68; Laranja Mecânica em 71; e Barry Lyndon em 1975. E então em 1980, O Iluminado








Hoje parece ter se criado um certo consenso em torno da obra do cineasta. Mas no meio dessa unanimidade toda, há uma crítica que me fascina, e que parece ter uma conexão com as críticas ao Salles. Reproduzo a seguir o pequeno texto feito pelo paulistano Inácio Araújo, em outubro de 2006 (o crítico parece ter acordado de ovo virado):

"Terror "classudo" de Kubrick soa muito pedante 


Todos têm os seus gostos, tudo bem. Mas às vezes, manifestar uma preferência parece confissão. Eu, por exemplo, tenho mil vezes mais prazer em rever "Carrie, a Estranha", do que "O Iluminado".


Digo mais um pouco: embora "O Iluminado" provoque uma fria admiração, tenho a sensação de estar diante de um filme extremamente pedante, como se ele quisesse me dizer a cada "take": "Olha, eu sou um filme de terror, mas não como esses filmes de terror que você costuma ver. Eu tenho classe". E Jack Nicholson aparece como a prova final dessa afirmação.


Confesso um pouco mais: a maior parte dos filmes de Stanley Kubrick anda me aborrecendo profundamente, com exceção de "O Grande Golpe", de "Laranja Mecânica", este, de fato, um filme e tanto.


Dizem que Kubrick era um grande artista e, pessoalmente, um grande chato. Sobre a primeira afirmativa, o tempo dará a resposta final." 


E num outro momento, falando de Barry Lyndon, o crítico volta a cutucar:

"[...]


Aqui, o relato das aventuras do malandro Barry Lyndon vem guarnecido do uso audaz do "steady cam" acompanhando o avanço de um exército com a câmera junto a um terreno irregular e sem trepidações.


Mais espetacular ainda é o uso de lentes especiais para que o filme pudesse ser iluminado à luz de velas. Mais espetacular ou mais maneirista?


De todo modo, Stanley Kubrick, às vezes, nos afasta um pouco de seu objeto, como se entre ele e nós se interpusesse a arte.


Nisso, é diferente do diretor Paul Verhoeven, que, mesmo num filme cheio de efeitos, como "Tropas Estelares", de 1997, traz algo do cinema plebeu das origens."


Estou lendo o ótimo livro de Michael Benson, 2001: Uma Odisséia no Espaço - Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a Criação de Uma Obra Prima, lançado por aqui pela Todavia. Nele, temos Stanley dizendo sempre nas reuniões preliminares com seus colaboradores que queria fazer um filme de ficção científica que não fosse um lixo. Ele tinha um desprezo por tudo o que o cinema havia feito no gênero. O resultado foi um filme brilhante, mas de fato frio e intelectual - o antípoda das charmosas e mal feitas produções B dos anos 1950. Alinhado com a opinião de Araújo temos o próprio autor da história, Stephen King:

"As pessoas obviamente adoram o filme [O Iluminado], e não compreendem por que eu não gosto. O livro é quente, o filme é frio; o livro termina com fogo, e o filme, com gelo. No livro, existe um verdadeiro arco em que você vê este sujeito, Jack Torrance, tentando ser bom, mas que, pouco a pouco, vai se tornando maluco. E, quando assisti ao filme, Jack era louco desde a primeira cena. Tive que ficar com a boca fechada na época. Era uma exibição antecipada, e Jack Nicholson estava presente. Mas fiquei pensando comigo mesmo, no momento em que ele apareceu na tela: “Ah, eu conheço esse cara. Eu já o vi em cinco filmes de motoqueiro, em que Jack Nicholson fazia o mesmo papel”. E é tão misógino. Quero dizer, Wendy Torrance simplesmente é apresentada como uma dona de casa que não para de berrar. Mas essa é só a minha opinião, é só o jeito como eu sou." 

"Eu acho O Iluminado lindo, tem um visual incrível. Como eu disse antes, é um Cadillac grande, lindo, sem um motor dentro"


Lembrando que cinco anos antes o cineasta havia adaptado o livro de William Thackeray, Barry Lyndon, com requintes de exatidão. Mas aí se trata de alta literatura, é o campo do highbrow. King, um best-seller em seu terceiro romance, não recebeu o mesmo tratamento.

Não é preciso um grande esforço para imaginar o grande Kubrick, mesmo fazendo um filme de horror, fugindo com asco e desdém da linha de trabalho de um Tobe Hopper ou um David Cronenberg. É preciso criar arte, e não lixo. Nenhum problema nisso, seu interesse e sensibilidade eram de outra natureza. Mas me faz pensar no Walter Salles, com um cinema poético, de grande beleza e alcance de público, mas que tenta a todo o custo de diferenciar dos "filmes brasileiros mal feitos e cheios de palavrões e mulher pelada". É o tal do cinema de qualidade.

A postagem ficou imensa, e não tenho certeza se me fiz entender.
Enfim.
Kubrick não é Carpenter.
Salles não é Candeias.
E tudo bem.




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