As suítes para violoncelo de Bach são a bíblia de todo cellista. Desde o amador – como este que escreve essas linhas – até os profissionais consagrados. Além de explorar o instrumento em todos os seus recursos, as suítes são também muitíssimo populares: quem não conhece e se emociona com as notas iniciais do prelúdio da primeira? Todos grandes cellistas da história têm suas próprias gravações. A lista vai dos consagrados Mischa Maisky e Antonio Meneses até lendas como Jacqueline Dupré, Mstislav Rostropovitch e Pablo Casals.
Com o cellista
sino-americano YoYo-Ma não é diferente. Aos 62 anos, gravou pela terceira vez – e última, como ele faz questão de frisar – as seis suites de Bach para violoncelo
no disco Six Evolutions, lançado no mês passado. Ma é um dos
instrumentistas mais populares da atualidade. Aclamado nas salas de concerto, também participou de projetos que não se restringem a música dita erudita. Por exemplo, gravou com Bobby
McFerrin, participa ativamente do belíssimo projeto Silk Road Ensemble e lançou
um ótimo disco de música brasileira chamado Obrigado Brasil. As suítes
unem o apelo erudito ao popular.
Em Six Evolutions, Ma deixa
a música florescer e decair com naturalidade; ao final de cada movimento, sem
os rompantes de quem concluiu uma performance triunfante, há um desvanecer
natural que integra o som da última nota ao silêncio que segue, como se
fizessem parte da mesma frase musical. Por vezes, fica a impressão de que ele está
surpreso com preciosidades da música de Bach, como se fosse possível se
surpreender com peças que toca desde os quatro anos de idade (ver video
abaixo). Além disso, Ma parece fazer questão de que percebamos o lado físico de sua performance: o deslizar de seus dedos sobre as cordas, sua
respiração, o esforço do corpo e mesmo as sutis imperfeições (ouso dizer) das notas. Tudo
muito longe das gravações controladas e precisas de jovens virtuosos que se encontra com facilidade no Spotify.
Tento evitar o clichê
orientalista, mas Ma parece seguir o fluxo natural da notas desprovido de ego. Em uma das várias entrevistas que deu para promover o
álbum, disse que as suítes de Bach o ajudaram a entender que os processos da
vida não podem ser controlados. De fato, desejo de controle é o que menos aparece em suas últimas
suítes. A despeito de toda sua experiência, em Six Evolutions, Ma se entrega aos imprevistos
da música, ao que não está na partitura. O refinamento último do mestre é mostrar
seu lado imperfeito.
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