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Théodore Chassériau. Bord de rivière ou d'étang à Paray-le-Frésil. 1852 |
A anotação é bem segura. Rápida e potente. O furor do verde que trafega entre o musgo encharcado e o esmeralda. A cor se divide, o verde inconfundível da paleta do artista impregna a folhagem das árvores, a relva multiesverdeada, se derrama nas águas e compete, em largas pinceladas diluídas, com o ocre na descrição do céu. Os traços rápidos dos negros fazem a margem e a divisão da grama e da água, elevam os galhos e troncos para além dos limites da aquarela. A estrutura das árvores com seus troncos finos e sinuosos são elegantes e ao mesmo tempo sensuais. Na extrema direita da composição as moitas se misturam, uma pequena elevação se percebe. Alí os negros e verdes se harmonizam, os tons ocres dominantes e incomparáveis no céu se encontram timidamente por todos os outros cantos e se impõem. Alguns pontos brancos, a cor aliás está presente também nas árvores, cria uma aura em algumas delas; e mais, é responsável pelas indicações de nuvens de modo equilibrado, respeitando o seu lugar restrito na obra. Aquele ambiente tranquilo, de paz aparente e silêncio escancarado é refletido nas águas, o mundo se espelha e continua para além de nossa visão. Ele é maior de um lado ou de outro: visível é uma parcela que é posta neste universo apresentado.
Théodore
Chassériau não é o artista quando se pensa em paisagista. Ao contrário, seu fulgurante
sucesso a partir de 1838 se dá especialmente no modo com o qual apresenta o corpo
humano, em particular o feminino. Mas guardo no íntimo a criação de paisagens
como essa. O senso de verdade dos verdes, ocres, pretos etc. denotam uma
importância singular, “estamos em presença de algo que até então não existia,
que não era nada para nós e que bruscamente nos impõe sua realidade”, nas
palavras de Maldiney. Aquela anotação do início parece se converter em uma obra
potente e complexa.
Este
ponto é importante para pensar que há um princípio elementar para o historiador
da arte (e provavelmente para todos que tem como base o trabalho com as
imagens). Talvez alguns se sintam constrangidos em ler exatamente que tal
princípio é o olhar. Pressupõe, portanto o embate com as obras e indica este
ato como primordial. Em detrimento daqueles que insistem em tratar a obra de
arte como ilustração seja lá do que for. Provavelmente não se quer indicar com
isso uma máxima bem conhecida entre os teóricos da semiótica de raiz francesa:
“Hors du texte, point de salut!”, como diria Algirdas Julien Greimas, de modo
enfático excluindo qualquer coisa que não faça parte do objeto de estudo. Separando
e criando confusões entre os limites do que realmente faz parte do que vejo e
aquilo que poderia ser chamado de contexto ou fora do texto. Portanto,
analisando coisas que estão fora, comprometendo o próprio objeto de estudo.
Claro, essa definição e sua aplicação tem uma história muito complexa e diversas
interpretações, por ora, deixo aos especialistas.
Interessa,
antes, indicar que este post nasce a partir da leitura do livro recém lançado Fenomenologia e arte: Maldiney no Brasil.
Organizado e traduzido por Nelson Aguilar e publicado pela Edusp. Henri Maldiney
não era um historiador da arte de formação, mas um filósofo, fenomenólogo.
Contudo, seus questionamentos e seu poderoso olhar enaltece as categorias
fundadoras da disciplina. “Não se faz história da arte de costas” dizia Nelson
Aguilar, em suas aulas. Ora, significa encarar aquelas imagens, não ceder as
previsíveis tentações do texto já estabelecido. Todo o conhecimento nasce de
alguma forma das imagens. É preciso, como ressalta Jorge Coli “confiar nas
obras. Para tanto o olhar é o ato fundador”.
Os
textos certamente ajudam e são indispensáveis, mas o são quando o olhar
trabalha junto com eles. Ainda Maldiney: “Quando, num primeiro momento, estamos na surpresa, no
espanto, não somos sujeitos diante de um objeto. Estamos numa relação muito
mais primitiva e íntima, digamos originária[...]”. As obras de arte, matéria
prima do historiador da arte possuem energias, alteram de alguma forma minha experiência
no mundo, não passo incólume por elas. Agem de diferentes maneiras em diferentes
momentos de sua existência. Naquele momento preciso da relação delas com o olhar
Eu É sempre um outro – tomando emprestado
a célebre máxima de Rimbaud. O olhar que as capta é o olhar do presente. Os
inúmeros e diversos “momento presente”, que podem estar incrustados na obra, mostram
esta condição da leitura e sua riqueza e infinitude angustiante e extremamente
complexa de sua existência.
A
história da arte se faz de frente.
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