Só a cultura mestiça é boa, porque não há outra

Nada mais japonês do que A onda, de Hokusai (1830 circa):


A onda é o nome mais conhecido dessa estampa. O título original, porém, é Sob a onda, ao largo de Kanagawa.

Kanagawa, ok: é uma região costeira, não longe de Tóquio. Mas por que "sob" a onda? O que estaria debaixo dela?


Os barcos, de forma recurvada, integram-se aos balanços curvilíneos provocados pela oscilação bem desenhada das águas. Os pequenos remadores tentam evitar o naufrágio que parece iminente.

No entanto, o tema principal da imagem não é este.



O tema de A onda é o monte Fuji, visto ao longe, com seu pico recoberto de neve, bem no centro do arco principal formado pelas águas. Hokusai passava por um período difícil: morte da esposa, problemas financeiros, saúde debilitada, quando decide realizar as 36 vistas do monte Fuji. Alguns especialistas preferem chamar a obra de Fuji visto através das ondas ao largo de Kanagawa.

A formidável originalidade da composição opõe o monte, sereno, eterno, à força dramática da natureza agitada. Há uma relação precisa entre eles, porém, que acentua o paralelismo dos contornos e o contraste entre o branco no alto e o azul embaixo. A onda menor, no primeiro plano, imita a forma do monte, como se a agitação do mar aspirasse à imobilidade sagrada da montanha. Essas gravuras, em japonês, são chamadas de Ukiyo-ê, "imagens do mundo flutuante", ou seja, o efêmero entre os homens e na natureza.

 

Alguns especialistas apontam influências chinesas que haviam penetrado no Japão bem antes, entre elas a do estilo shan shui, expressão que quer dizer "montanha água".  Os chineses associavam montanhas e rios, cascatas ou lagos. No exemplo abaixo, de Wang Hui, datado de 1679, a longa cascata, à direita, termina se espraiando no primeiro plano. Ao contrário de A vaga, são as montanhas que se impõem, e é preciso um esforço para descobrir o percurso das águas. Estas são serenas, enquanto as montanhas sugerem um movimento telúrico de ascensão e de convergência no alto.




Hokusai emprega também, de maneira consciente, a perspectiva geométrica, à maneira ocidental. A forma clássica do espaço "japonês" é aquela vista do alto, em que a linha do horizonte se ergue na medida em que o olhar se aproxima. O horizonte desaparece, e o ponto de fuga é inexistente. A percepção é como se víssemos do alto o mundo numa bandeja. A escola de Tosa, no século 16, da qual Tosa Mitsuyoshi é um ilustre representante.

Tosa Mitsuyoshi (1539-1613) - Ilustração para o álbum Genji Monogatari - Museu Nacional de Kyoto

A assimilação do espaço à maneira do ocidente havia sido ocorrido desde o 1720, quando chegou ao Japão o Perspectiva Pictorum, do tratado do padre Pozzo - grande pintor jesuíta, autor do vertiginoso teto da igreja de Santo Inácio, em Roma - traduzido para o chinês. O Japão continuava fechado ao Ocidente, mas os holandeses tinham o direito de chegar a Dejima, pequena ilha artificial no porto de Nagasaki, para o comércio. Por eles, os japoneses conseguiam um vislumbre da cultura ocidental. É assim que Utagawa Toyoharu copiou, em 1770, uma gravura do forum romano, dando a ela o nome poético e perfeitamente imaginário de Vista perspectiva de igrejas francesas na Holanda:



Ou a transposição de uma gravura de Antonio Visentini, ela própria a partir de uma tela de Canaletto, mostrando uma vista do Canal Grande:



A versão japonesa de Toyoharu tem como título, mais uma vez, a evocação de um Ocidente sonhado: O sino que ressoa por 10 mil léguas no porto holandês de Frankai.

São testemunhos da presença do espaço perspectivo no âmbito da cultura japonesa. Satake Shozan  (1748 - 1785) escreveu três tratados sobre as técnicas da pintura européia. Ele foi seduzido pelo efeito de contraste entre a presença de uma árvore no primeiro plano, acentuando a distância do horizonte, efeito que aprendeu com os holandeses:

Jacob van Ruidael - Vista de Egmond van Zee com um olmo seco - 1648 - Currier Museum of Art, Manchester
Satake Shozan (1748 - 1785) - Periquito num pinheiro - 

Desse modo, A onda, de Hokusai, radicaliza de modo genial procedimentos de representação espacial vindos do Ocidente. A vaga imensa, no primeiro plano, com suas espumas formando como que pequenas garras, é a moldura espacial para o monte Fuji, no fundo.

Há mais. Nos anos de 1820, os holandeses trazem ao Japão o assim chamado "azul da Prússia", pigmento  que os alemães haviam inventado e que os japoneses chamavam de "berorin-ai", o azul de Berlim. Antes dele, os azuis empregados, orgânicos, tendiam a desbotar e não possuíam a mesma intensidade. Esse azul era tão expressivo, e fez tanto sucesso, que o editor de Hokusai apresentou a série do monte Fuji como "aizuri-e" - imagens estampadas em azul.

Por sua vez, o impacto das estampas japonesas sobre o Ocidente foi enorme. Os impressionistas, Degas, van Gogh, foram profundamente marcados por elas. No caso de A onda, talvez a mais poderosa obra que ela tenha suscitado seja não visual, mas sonora: La mer, de Debussy. Na capa da primeira edição dessa partitura figurava um detalhe de A onda, de Hokusai.



Ouça abaixo La mer, de Debussy, na insuperável versão de Charles Munch, frente à Sinfônica de Boston



E como as contaminações culturais nunca cessam, Toru Takemitsu, imenso compositor japonês, foi profundamente marcado por Debussy. Ouça Entre marés, composição de 1993, em que, justo retorno, o espírito de La mer, de Debussy, está presente.






Mesmo numa sociedade em que a singularidade histórica fez com que ela se fechasse ao contato dos estrangeiros, a cultura sempre se tece, se renova, se recria, graças aos aportes exteriores. Não há "genuíno", nem "autêntico", no sentido de uma pureza exclusiva original. Identidades, raízes, são fabricações que se tornaram mitos. Quanto mais se mescla, mais se apropria, mais as produções da cultura se enriquecem.

Hokusai: A onda feminina



Van Gogh - Noite estrelada

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