A cena da dança: a fantasia combate o extremismo


Trust in me, my honored friend
I'll bring your sadness to an end

O filme escolhido para nortear este post é Anchors Aweigh, 1945. Foi dirigido por George Sidney e é particularmente famoso pela cena que será abordada aqui, na qual Gene Kelly dança ao lado de Jerry, o famigerado ratinho de Hanna-Barbera. 



Antes de mais nada é válido ressaltar a participação do cinema hollywoodiano do período da segunda grande guerra. No imaginário da necessidade da guerra para barrar os governos totalitários e também na justificação da presença de membros da família na guerra. E assim, por consequência, a sensação de quem fica cumprir também o seu papel. Anchors Aweigh foi lançado poucos meses antes do final da guerra. A sensação e ambientação é mais tranquila, se compararmos, por exemplo, com o filme analisado anteriormente, Yankee Doodle Dandy, 1942.




O filme se passa no seu tempo, dois marujos ganham a possibilidade de permanecer por quatro dias em Hollywood. O “prêmio” se dá pelos atos de bravura em combate e assim, Clarence “Brooklyn” Doolittle e Joseph “Joe” Brady (Frank Sinatra e Gene Kelly, respectivamente) partem para aproveitar a cidade. O filme, de tal modo, se insere na lógica da temática contemporânea da grande guerra e junto com On the Town, 1949 e Follow the Fleet, 1936 formam um subgênero, se assim é possível dizer da marinha norte-americana.

Uma vez na cidade, a história se descortina como um caso amoroso complexo e delicado, com amores cruzados. Mas, deixemos essa parte um pouco de lado agora e vamos a cena:





A utopia da arte é salutar. A fé em seu poder transformador que converte extremismos em vida pujante é muito presente.

Tudo acontece pela magia da imaginação, entramos literalmente na cabeça da criança e lá um novo mundo se descortina. Mágico, etéreo e pautado pela descrição de Brady. A relação da história inventada de como conseguiu uma medalha com o mundo absurdo, sombrio e tenebroso da guerra contra um movimento extremista, limite da estupidez humana, parece direta. 




Brady, caminhando em um lugar aparentemente idílico, paisagem onde as mazelas humanas não teriam vez, cai em um buraco que se mostra como um grande túnel, apertado e escuro. É preciso atravessá-lo e perceber que do outro lado encontra-se também beleza. Mas a alegria e o prazer de viver estão castradas pela lei do rei que proíbe a todos de cantar e dançar.

Gene Kelly, tão quanto no filme The Pirate, 1948, dança com explosão muscular. O número com Jerry enaltece suas qualidades. O ambiente do castelo é metafísico, o lugar da tristeza é vazio e melancólico. Um grande salão no qual o jogo das cortinas faz as vezes das colunas naquele lugar.



O mal é controlado e exterminado pela arte. Encher o coração com a alegria da música e da dança salvaria todo um povo de sua tristeza. Essa utopia parece se perder totalmente nos dias atuais. Aquilo que poderia ser indicado como poder transformador operado pelas artes é visto com desconfiança. Ser confrontado com seus medos, desejos, emoções mais estranhas e profundas nem sempre é um grande negócio. E para aqueles cuja principal tarefa é a eliminação da alteridade, não se reconhecer na arte significa perigo. A lei criada pelo rei em Anchors Aweigh foi sem muito esforço quebrada, em nosso mundo vem esbaforida e não se trata apenas de dançar e cantar. Ou, por outro lado, dançar e cantar é uma bela metáfora da ideia de liberdade, como bradavam os jovens em Footloose



Mas, ao menos ali, no universo do cinema a fantasia e a arte além de combaterem os extremismos e autoritarismos quase sempre levam a melhor. E apesar de utópico e distante de mim é o mundo que gosto de imaginar.

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