A imagem do museu

Houve um tempo em que, ao se pensar em um museu, antes de tudo vinham imagens de coisas à cabeça. Museus, afinal, são coleções, por princípio, meio e fim. Mas quem hoje, quando se depara com o termo “Guggenheim Museum”, por exemplo, não constrói mentalmente e de imediato o colosso arquitetônico que o abriga, o de Wright ou o de Gehry? Que à menção do nome “Louvre” não imagine a pirâmide de aço e vidro concebida por Pei? Ou que, ao ouvir somente a palavra “museu”, não pense de bate-pronto em crianças passeando por suas salas?

A reviravolta na imagem do museu, sobretudo tido como prédio e ações, e menos como coleção, se consolidou no último quarto do século XX. É verdade que o processo iniciara-se nos albores dos oitocentos, quando surgiu a instituição nos moldes que conhecemos e para a qual se conclamou um edifício totalmente novo, adequado para os mais diversos labores. Os grandes museus, em particular os de arte e também os de ciências, passaram a ser tesouros reluzentes para as cidades e nações. Só para algumas delas, é claro

O acervo sempre foi o coração de um museu, daí a precisão de estrutura e aparatos técnicos e humanos muito bem preparados. Não é luxo: para além das necessidades de conservação e de representar a própria imagem de cidades e nações, os museus significam a consciência de um pacto com a existência, a manifestação material do cogito ergo sum, de um compromisso que temos, enquanto humanidade, para com o mundo.



Talvez não sejam tão inesperados o desdém e o deboche com a tragédia do Museu Histórico Nacional nas redes sociais, assim como os depoimentos esdrúxulos das autoridades que evidenciam principalmente ignorância, descaso e estupidez. Perceber no seio de uma parte representativa da intelligentsia algo que, embora muito diverso, se alinha à matriz desses comportamentos é, por outro lado, um tanto perturbador.

Há em certas atitudes vanguardistas um princípio de destruição. O caso mais extremo e célebre é o dos futuristas que, liderados por Marinetti, clamavam por morte aos museus. Também naquele período e até aos anos de 1960 acentua-se o debate sobre a finalidade dos museus e por vezes de sua caduquice, se lhe associando a imagem de cemitérios e mausoléus. É quando se fortalece a ideia do “museu vivo”, centro de atividades múltiplas, função que passa a ser mais valorizada do que a de guarda e mostra das coleções. Coincide também, lembremos de novo, ao momento em que a arquitetura museal se sobrepõe cada vez mais ao acervo.

O edifício é sem dúvida muito importante para um museu, bem como é o conjunto de suas ações. Há no entanto um número de museus que são apenas cascas, pois sequer detêm verdadeiros acervos (no Brasil, alguns deles estão entre os mais cultuados e beneficiados tanto pelos poderes públicos quanto privados, ainda assim de maneira vergonhosamente mesquinha e corrompida). Outro ponto se conecta: a exaltação da cultura imaterial, que não deixa de ter seu lugar como patrimônio. Obviamente determinados museus ligados à imaterialidade podem ser relevantes, mas na medida em que as suas razões tendem a ser estranhas ou diáfanas eles podem também ser questionáveis.

Um museu que surgiu por vias da imaterialidade, ou melhor, da ficção literária, consubstancia uma nova modalidade de crítica aos grandes museus. Ele vindica os valores do comedimento e da simplicidade do dia-a-dia. O escritor Orhan Pamuk o criou em uma pequena casa que comprou em 2008 na cidade onde cresceu, Istambul, expondo lá objetos do cotidiano coletados por ele, segundo o próprio, ao longo de décadas. O museu foi idealizado em conjunto a um romance que ele publicou no mesmo ano de 2008 (no Brasil em 2011 pela Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman). Foi o primeiro lançamento de Pamuk depois de ter ganho o Prêmio Nobel de 2006 e se intitula, assim como a instituição, O museu da inocência.

Pamuk redigiu ainda um “Manifesto Modesto para Museus” no qual expõe sua visão para a entidade em nosso tempo, concluindo com a frase “The future of museums is inside our own homes” e apresentando a singela tabela abaixo que resume a sua proposta.

O ingresso ao Museu da Inocência, que foi aberto em 2012, custa 40 liras turcas (cerca de 32 reais) e a meia entrada 15 liras turcas (12 reais). É possível também entrar com um bilhete que vem estampado no livro, que custa 39,50 reais.

Oito anos antes de Pamuk lançar O museu da inocência, a escritora japonesa Yoko Ogawa havia publicado O museu do silêncio (no Brasil em 2016 pela editora Estação Liberdade, tradução de Rita Kohl). É um romance ficcional no qual uma velha procura um museólogo para cuidar de sua extravagante coleção. Não houve, nesse caso, a construção real de um museu do silêncio, que se manteve no livro, portanto, de forma imaterial.

Um “museu” – muita ênfase nas aspas – afeito de fato aos sons é a banda Museu do Esquecimento. Formada por Amarildo Pereira, Carlos Aberto Bellini, Cleiton Custódio, Cleo Custeau, Guilherme Marin e Rafael Marin, a banda tem um nome que não é apenas uma brincadeira, já que as composições guardam o sentido concomitante de preservação e renovação da música brasileira, tal qual um museu deve ter em relação ao acervo.

Aprecie ExComunGado, da banda Museu do Esquecimento.

Deixemos de lado a abstração, pois seriam tantos os museus poéticos, imaginários e imateriais. Pensemos naqueles que são concretos e nas ações centradas no acervo, ao invés de, por exemplo, confiná-lo anos a fio na reserva técnica em favor da exibição de peças que não lhe pertencem. É preciso encontrar uma forma equilibrada de expô-lo junto àquilo que lhe é externo e poderá um dia se lhe agregar, o que nos levaria a outra questão: até quando, onde e como conseguiremos guardar tantas coisas? Cada problema a seu tempo. Cuidar e expor dignamente, fomentar e promover as coleções existentes, antes de construir elefantes brancos, além de ponderar nos atos em que nós, acreditando estimular, ao contrário, minamos os museus são alguns dos imperativos para que não sucedam mais tragédias de conversão de acervos em apenas imagens.

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