A Resistência de Julián Fuks




A Resistência é um romance árido. O autor, Julián Fuks, é filho de pais argentinos que vieram ao Brasil fugindo da ditadura de seu país. Ganhador do Jabuti de 2016, o livro trata das dificuldades encontradas pelo narrador - encarnado pelo autor - na relação com seu irmão adotivo.

Pouco se sabe sobre a origem do irmão, além dele ter sido o único dos filhos casal nascido em solo argentino. Mas Fuks não cria uma história a partir disso; pelo contrário, os elementos da autoficção surgem do fracasso do narrador em encontrar uma narrativa satisfatória para a situação familiar. E esse é também um fracasso do leitor. Explico com um exemplo: quando, em dado momento do livro, o narrador suspeita que seu irmão fosse uma das crianças procuradas pelas avós da praça de maio em Buenos Aires, me preparei para a emoção de uma longa narrativa, na qual a história do irmão adotado se misturasse com a política do continente. Nada feito. Fuks nega essa estrada ao leitor, e também a si próprio.

                                                                        


Teria sido confortável, como nota a certa altura, encontrar a origem do irmão nos horríveis crimes que deixaram crianças órfãs na Argentina do final dos anos setenta. Algo dentro de mim queria que assim fosse, sedento para que a ficção alçasse voo de modo épico. Fuks, no entanto, permanece com os pés fincados na realidade e seus problemas insolúveis. Isso, é claro, não significa que elementos ficcionais não estejam presentes. O próprio autor, em uma entrevista, declarou que um amigo de seus pais, após ler o livro, pediu desculpas por não ter comparecido a um jantar descrito como um evento de grande importancia e que, na verdade, pouco teve de notável.


Mas Fuks resiste quando se trata de pensar a si mesmo – e a sua família – como o que Freud chamou de “novela familiar do neurótico”. Ao contrário, sua autoficção expõe a enorme dificuldade de criar estruturas narrativas que deem conta de traumas profundos. Mais do que isso: o que parece estar em jogo são as tentativas de sujeitos em contar histórias sobre si próprios que sejam dignas de ficção. E seus invariáveis fracassos.




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