O ano é 1977.
A banda de rock progressivo Pink Floyd já estava em seu décimo álbum. Formada em 1965 pelos estudantes Bob Klose (que sairia logo depois) Syd Barrett, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright. Tendo Barrett como seu principal compositor, a banda se firmou com seus sons estranhos e letras alucinantes. Mas Syd Barrett se afundava rapidamente no abuso de drogas, sobretudo LSD, o que comprometeu sua sanidade. Logo no segundo disco saiu da banda e foi substituído por David Gilmour.
Roger Waters então se estabeleceu como o grande autor das composições do grupo, e agora terminava a turnê do último disco, Animals, um álbum conceitual fortemente crítico às condições político-sociais da Inglaterra dos anos 1970. No último show da turnê, em Montreal, Waters se irritou com um grupo de fãs barulhentos que estavam enchendo o saco em frente ao palco, a ponto do músico disparar cusparadas contra eles. Após o show, conversando com seu produtor e com um amigo psiquiatra, o músico confessou o crescente sentimento de alienação que estava sentindo nessa turnê. Tocar em grandes estádios, pra milhões de pessoas, era um verdadeiro pesadelo. Seu desejo era construir um muro que separasse palco e público, assim ele poderia confortavelmente se isolar.
Nascia o conceito do próximo álbum do Pink Floyd: The Wall.
Lançado em 1979, The Wall é uma ópera rock que tem como protagonista Pink (um misto autobiográfico de Waters com elementos de Syd Barrett), cujo pai morreu em batalha na Segunda Guerra Mundial e que luta para se encontrar num mundo frio e indiferente. A mãe superprotetora o oprime, sufocando seus desejos de afeto e os professores do colégio o ridicularizam e sentem prazer em massacrar qualquer sinal de sensibilidade não utilitária. O garoto cresce e se torna um famoso astro do rock, mas o fracasso do casamento e o abuso no uso de drogas só faz aumentar seu sentimento progressivo de isolamento do mundo.
Cada um desses traumas representa um tijolo. Em breve o muro está erguido, imponente e inescapável.
O ponto de virada é quando Pink, fechado em si, passa por uma metamorfose e torna-se um líder fascista, cujo discurso arrebanha multidões, dando início a uma onda de terror pelas ruas. Se o roqueiro deprimido era fraco e indeciso, o líder camisa negra é firme, decidido e forte.
Seu sentimento de culpa faz com que ele coloque a si mesmo em julgamento, sentenciando-se a derrubar o muro que o separa do resto do mundo.
Se você ainda não ouviu esse baita disco, segue o link:
Pouco tempo depois, em 1982, o cineasta americano Alan Parker dirigiu uma versão pro cinema, com roteiro escrito por Roger Waters. Estrelado pelo músico punk Bob Geldof e com trechos animados criados pelo cartunista político Gerald Scarfe. O filme é brilhante, mas deixou todos os envolvidos estressados. Waters classificou a experiência como enervante e desagradável. Já Parker descreveu as filmagens como uma das experiências mais miseráveis de sua vida.
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A guerra e seus efeitos |
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Seres desfigurados, sem identidade, um rosto amorfo |
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E os professores, abusivos e tirânicos |
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E as crianças na linha de montagem... |
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...seres desfigurados, sem identidade, rostos amorfos... |
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...prontas para virar salsicha. |
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A apatia mesmo quando seu casamento está em ruínas. |
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Apatia só quebrada quando ele próprio se torna um ditador fascita... |
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... cujo público é uma massa de seres desfigurados, sem identidade, rostos amorfos. |
Em 1983 o Pink Floyd se separou. Mas em 1990 Roger Waters retomou a obra para realizar um concerto histórico em Berlim, um ano após a unificação do país. Nesse gigantesco evento, um muro era progressivamente construído no palco, para ao final ser destruído. O show voltou em turnê em 2010-2013. Se o muro originalmente foi pensado como metáfora do isolamento descorrente do abandono e solidão, os shows nos dizem que os muros hoje são outros.
Muros que são construídos todos os dias. Seja na fronteira entre Israel e Palestina, ou nos países da União Européia para barrar os refugiados, ou em nossas cidades para separar os miseráveis dos ricos. Além das diferenças étnicas, religiosas, sociais e de gênero, cada um um tijolo no muro que nos separa, que nos tira a humanidade.
Muros que precisam ser derrubados, mas que parecem só aumentar e se fortalecer.
Roger Waters ergueu um muro em seu show em São Paulo, na turnê de 2018 US+THEM, e ao projetar o nome do candidato à presidência que é a favor do regime militar e da tortura nele, mostrou ao público um espelho. E a imagem que foi vista não agradou. Foi vaiado por metade dos pagantes, a outra metade o aplaudindo, enquanto pessoas trocavam socos na pista premium.
Como bem disse Renato Russo, em sua canção Índios: "mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente".
Arrasou! Adorei o texto!
ResponderExcluirObrigado, Juliana.
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