História do Pudor foi
publicada em 1986. Seu lançamento ocorreu já na influência de um
importante movimento da historiografia, a chamada história das mentalidades. Um
campo que abriu caminho para pesquisas que deixavam de lado os grandes
personagens das monarquias, da alta aristocracia ou líderes políticos e se
interessavam mais pelos indivíduos comuns.
Talvez
inspirado pelo texto de Lucien Febvre, La sensibilité et
l’Histoire de 1942, uma história dos usos dos sentidos nos
sistemas de percepções e emoções ao longo dos séculos, Jean-Claude Bologne não
escolhe um personagem ordinário, como Carlo Ginzburg em O queijo e os
Vermes (1976), mas preferiu traçar a história de um sentimento.
O autor inicia
definindo categorias que servirão como um prisma para suas análises. Não separa o
pudor exterior do interior, que para ele trata-se da mesma atitude. O pudor dos
sentimentos e os pudores corporais são governados pela mesma lógica: aquilo que
nos parece uma fraqueza, é o que escondemos. Assim, a vergonha da nudez nasceu
em um momento em que estar nu era um sinal de fraqueza (na idade média) ou
ridículo (no século XIX). À primeira vista, a distinção parece simples, restava as mulheres o pudor corporal e aos os homens pudor dos sentimentos.
Se o
Renascimento tolerou – encorajou, até – vestuário que descobria ou punha em
evidência o que a decência recomendava que se escondesse, suscitou ao mesmo
tempo as primeiras reações que podemos qualificar de pudicas: a visão da carne
ou de uma braguilha bem feita bastava para despertar a vergonha. É o momento em que se explora a situação nova do voyeur, que não necessita tocar a carne que
descobre.
O autor analisa a mudança
dos diferentes tipos de banhos (privados, públicos, no mar, etc). Na
Idade Média a preocupação é com a libertinagem que a proximidade dos corpos
nus na água poderiam trazer. Mas a mudança ocorre nos século XVI e XVII, onde a vergonha invade o olhar e os pudores nos banhos passam a ser guardiões da
castidade.
No século
seguinte as questões morais transformam o nu ao ponto de Diderot ter um
chilique no salão de arte: “Cet homme ne prend le pinceau que pour me montrer
des tétons et des fesses Je suis bien aise d en voir mais je ne veux pas qu on
me les montre” (Este homem pega o pincel só para me mostrar mamilos e nádegas.
Não me custa ver peitos e rabos, mas não quero que os mostrem), Diderot
referia-se ao quadro Angélique et Médor (1763) de François
Boucher (1703–1770) que foi exibido no Salão de 1765.
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Detalhe dos vitrais da Catedral de Chartres. Deus
alertando Adão e Eva para não comerem o fruto da árvore da sabedoria.
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Visto, observado ou
exibido, o nu muda radicalmente de valor. Bologne diz, basta apontar um
banhista com o dedo para que ele logo sinta a falta da roupa de banho. Na
concepção judaico-cristã, a nudez de Adão e Eva antes do pecado original é
aquela que não temia mostrar-se como na catedral de Chartres ou na de Reims.
Porém, consumado o pecado, cobre-se de folhas de figueira o membro viril na
iconografia religiosa, e este torna-se símbolo de inocência.
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No que diz respeito à prática e à escrita médica, a Idade Média não conhecia nenhuma restrição. O Renascimento parecia que havia conseguido livrar-se do pudor nos livros de anatomia. No entanto, o frontispício de duas edições do do livro de Andreas Vesalius De Humani Corporis Fabrica, parece indicar contaminações dos pudores corporais. Na edição de 1543 a cena que retrata uma aula de anatomia, há figura masculina no canto esquerdo que se apoia em uma pilastra e está nua. Já a edição de 1555 o mesmo personagem é representado com vestimentas. Sua nudez foi coberta. Para o autor o sucesso imediato do Fabrica foi fatal. Quando um livro de medicina passeia por todas as boas bibliotecas, deve-se evitar chocar o público. A segunda edição parece ter se deparado no ímpeto do Renascimento um conflito religioso acompanhado pelo reforço das virtudes ofendidas e os filósofos da época já não viam com bons olhos um jovem efebo despido figurar no livro do senhor Vesalius.
A folha de videira para cobrir o sexo nas obras de arte, especialmente o sexo masculino, aparece já no século XVI. Mas é no século XIX que os discursos de uma vida cotidiana pudica são impostos pelas autoridades e a sociedade parece se contaminar por um pudor artístico. Não por acaso o escritor francês Gustave Flaubert fica indignado ao visitar o museu de Nantes e encontra as esculturas cobertas por uma estrutura de metal, ocultando os sexos:
O Apolo de Belvedere, o Discóbolo e um flautista foram encouraçados com esses vergonhosos calções metálicos que reluzem como panelas. Estão escalpelados nas bordas e presos com parafusos nos membros das pobres esculturas, que se racharam de dor. Vemos, além disso, que se trata de um trabalho planejado longamente e executado com amor. Neste tempo de rematado disparate que corre, no meio da estultícia normal em que tropeçamos, é animador, mesmo que apenas por diversão, encontrar pelo menos uma desgarrada asneira, uma estupidez gigantesca. A despeito de todos os meus esforços, nada consegui apurar do criador desta pudica imundície. Apraz-me crer que todo o conselho municipal tomou parte na coisa, que os Senhores padres a haviam solicitado e que as damas acharam conveniente.
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Esculturas dos museus capitolinos foram cobertas para a visita do presidente iraniano Hassan Rohani em 2016. |
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