Roger Corman é um nome conhecido no universo do cinema. Padrinho do cinema B de Hollywood, ingressou na indústria de filmes após abandonar o curso de engenharia na Universidade de Stanford. Começou por entre os estúdios da 20th Century Fox e, pouco a pouco, construiu seu império de filmes, com a produção de mais de quatrocentos títulos. Quando percorremos sua biografia, compreendemos boa parte da história do cinema ao longo da segunda metade do século XX.
É na American International Pictures, de Samuel Arkoff e James Nicholson, na qual Corman trilha seu caminho pelo mundo da ficção científica e do horror, gêneros dos quais é verdadeiramente um padrinho nos Estados Unidos. Ao longo de sua carreira, Corman trouxe grandes nomes para Hollywood, muitos dos quais hoje poucos associam ao dele. Jack Nicholson, Dick Miller, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Jonathan Demme, Ron Howard, Peter Bogdanovich são alguns.
Sua autobiografia, assinada com Jim Jerome, “How I made a hundred movies in Hollywood and never lost a dime”, brilhantemente trafega pela história do cinema e os pormenores – deliciosos de se ler – das referidas produções. “Como eu fiz mil filmes em Hollywood e nunca perdi um tostão” é de fato um título que faz jus a Corman, exceto por um filme.
Em 1961, Roger e seu irmão Gene, com o qual mantinha uma pequena produtora, se mostram interessados em adaptar um livro de Charles Beaumont, lançado poucos anos antes, em 1958. The Intruder contava a história de um jovem, John Kasper, que desequilibra a harmonia de uma pequena cidade no Tennessee com seu inflamado discurso de ódio racial.
Após algumas tentativas de adaptar o romance para as telas do cinema, os irmãos Corman veem-se envolvidos no projeto, e assim, com um orçamento baixíssimo, financiado por eles mesmos, com roteiro assinado pelo próprio Beaumont, é lançado em 1962 The Intruder. Corman afirma que o filme foi um sucesso de crítica e um fracasso de bilheteria. Acusaram-no de comunista e de querer dividir o país. E ele, que sempre se mostrou como um esquerdista, se viu obrigado a diminuir o tom político de seu cinema, contudo, sem jamais abandoná-lo.
O filme se passa em uma cidade fictícia, Caxton, no sul dos Estados Unidos, num momento de intenso debate político no país, logo após a decisão da Suprema Corte Norte-Americana em revogar a segregação racial nos Estados Unidos, tornando obrigatória a integração escolar de negros e brancos. Adam Cramer, protagonizado por William Shatner (que viria, anos mais tarde, a eternizar a figura do Capitão Kirk de Star Trek), é um representante da Patrick Henry Society, uma organização racista que nasce em resposta à NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), chega à cidade com seu discurso racista, antissemita e anticomunista, promovendo discursos vigorosos nas praças públicas da cidade, incitando os habitantes a se rebelarem contra a lei.
A caminhada dos jovens negros até a escola é tratada como uma marcha fúnebre de um grupo de inocentes que caminha em direção à equivocada sentença. Os grupos extremistas formados em Caxton, a luminosidade da cruz em chamas, pregada diante da igreja pelos encapuzados, reflete-se no olhar inebriado de cólera do intruso Cramer.
Cramer é um homem de bem, auxilia as crianças e senhoras a descerem do ônibus, seduz a adolescente que trabalha no bar local, é jovem, atraente e educado. Seduz ainda, com sua beleza e suas palavras de ódio, sempre muito bem enunciadas. Tudo que motiva sua intolerância, se justifica na busca, como ele mesmo coloca, por um país “livre, branco e americano”.
Logo se iniciam ataques aos negros. Imediatamente após o comício de Cramer, centenas de pessoas atacam uma família de negros que retorna para casa e, posteriormente, a igreja do bairro negro é bombardeada, deixando como vítima o padre local.
Diante de tudo isso, o jornalista da cidade, Tom McDaniel (Frank Maxwell) começa a se indagar sobre sua própria condição, enquanto percebe o perigo que Cramer representa. Tom, que inicialmente é contra a integração, mas se vê como um homem que deve seguir a lei, percebe, apenas com a chegada de Adam Cramer, que o ódio aos negros não é o caminho. “Eu não sabia até agora. Cramer conseguiu algo, ele nos obrigou a encararmos uns aos outros”. Sua esposa, que é como o pai, contra a integração racial nas escolas, não sabe o motivo de sua intolerância. Como eles, é levada por um ódio cego, raso e sem argumentos: “é errado, isso é tudo”.
Após os ataques, Cramer percebe que a situação fugiu de seu controle. Seus argumentos metamorfoseiam-se em ataques violentos e fatais, e nem mesmo Tom sai incólume. Aos poucos, as palavras de Cramer começam a se voltar contra ele, e com a mesma rapidez os habitantes de Caxton percebem nele a imagem de um charlatão.
Trata-se de um filme brilhante, que articula com maestria a questão do racismo em uma sociedade que não sabe o motivo de seu ódio. Eu Te Odeio – título emblemático, com o qual o filme foi lançado no Brasil, reforça o caráter da discriminação cega que assola a população.
O discurso de Cramer parecia ter razões equilibradas. Para ele, não fora sua culpa a destruição da igreja, ou mesmo o linchamento do jovem negro, acusado erroneamente de estuprar a jovem branca do colégio, e pouco importava se deturparam seu discurso, se feriram a integridade de sua demanda.
Seu fim é o isolamento, e a certeza da população, de que suas palavras não passavam de mentiras, ditas para inflar o ego de um homem miserável. Não há, no filme, um combate agressivo a Cramer. A voz da razão enfim encontra o seu caminho entre os residentes de Caxton.
Seu fim é o isolamento, e a certeza da população, de que suas palavras não passavam de mentiras, ditas para inflar o ego de um homem miserável. Não há, no filme, um combate agressivo a Cramer. A voz da razão enfim encontra o seu caminho entre os residentes de Caxton.
Beaumont nos avisava há exatos 60 anos que a perseguição às minorias era fruto de uma irracionalidade nociva, pautada pelo ódio aos negros, aos judeus, ao tão temido comunismo.
Em meio ao fanatismo e à repressão, é válido lembrar da mudança de opinião de Tom e pensar que, mesmo para nós, há esperança.
Acabei de assistir este filme extraordinário, pouco divulgado, por que será? Este filme é didático: pelas cenas, diálogos, discurso de ódio, é útil para entender por que ainda hoje, 2024, os norte-americanos votam num sujeito racista Trump. De onde vem tanto ódio aos negros nos Estados Unidos, principalmente no sul deste país cuja democracia é uma farsa.
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