Ah! Esse falso realismo!

A luta das artes plásticas contra a hegemonia da abstração foi enorme. Eclodiu nos anos de 1960.

A grande corrente abstrata do pós-guerra produziu obras e artistas grandes e notáveis. Mas imperou de maneira tirânica, com apoio poderoso da CIA, como se descobre mais e mais nos nossos dias.

O hiperrealismo (a subdivisão conceitual e acadêmica de "fotorrealismo" não vale muito a pena; porque ambas se confundem) foi uma forte reação ao universo não figurativo. Salvador Dali via nele a salvação de uma arte que se deixava, cada vez mais, levar-se pela por uma barbárie abstrata. O projeto era, agora, partir da fotografia, ou entrar em concorrência com ela pela virtuosidade da imitação.

No Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo, há uma exposição que tem, como título, 50 ANOS DE REALISMO – DO FOTORREALISMO À REALIDADE VIRTUAL. O título promete uma perspectiva histórica e, se possível, um recuo reflexivo. Nada disso acontece. Dos grandes nomes, os velhos, da velha guarda que criaram essa arte feita pela imitação minuciosa do mundo sensível, há bem poucos, e quando eles estão lá, são representados por obras recentes. Assim, John de Andrea e sua sublime Mother and child, que data de 2016:


Ou sua Christine I, de 2011:







Ou John Salt, que demonstra, com seu No parking, de 2007, a repetição da mesma tecla que o consagrou nos anos de 1960 e 1970:


A obra historicamente mais importante talvez seja Blue Dinner with Figures, de Ralf Goings, que data de 1981 e faz irresistívelmente pensar nos Nighthawks, de Hopper, mas empregando a frieza dos cromados e vidros reluzentes para criar a solidão no quotidiano:


Mas Chuck Close, Richard Estes, Duane Hanson e tantos outros nomes essenciais, representantes dessa corrente, faltaram à chamada. Não se trata, portanto, de "50 anos de realismo", O título deveria ser, muito mas, "Aspectos da arte realista hoje". A denominação que está lá é um engana cliente, ainda mais que a Nouvelle figuration, francesa, é esquecida, assim como qualquer alusão ao debate teórico desencadeado por Baudrillard. Nem mesmo os vínculos com o pop-art são evocados.

Dos artistas recentes, algumas obras são insuportáveis de kitsch - não intencional. Um deles, o grego Antonis Titakis, e suas ondas marinhas (2015):


Nas etiquetas das obras, percebe-se a repetição de algumas galerias que concederam empréstimos: Plus One Gallery, de Londres (a mais frequente), e algumas outras. Disso tudo, mana um cheirinho de operação mercadológica.


Entre os criadores recentes são os brasileiros que, muito poderosos, fazem bela e grande figura. Vão além da pura virtuosidade, como Hidelbrando de Castro, ao insuflar nas formas da arquitetura contemporânea um sentimento de opressão:

Ou esse formidável escultor, Giovani Caramello:




Ou ainda Fábio Magalhães, empregando a reprodução minuciosa para criar um universo muito próprio, narcisico-surrealista:


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Estão presentes outros artistas brasileiros, e muito bons. Haveria mais ainda, bastaria buscar.

Certas obras tentam uma relação com a realidade virtual. São poucas, mais ou menos divertidas.

Não há um pensamento forte que dirija a concepção da mostra. Ainda assim, com seus altos e baixos, com suas lacunas enormes para o que se propunha, permite descobrir belas obras e grandes artistas. Mas a questão do realismo contemporâneo é muito mais do que está nas salas do CCBB.



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