DOSSIÊ FILMES SOBRE DITADURA BRASILEIRA. I - O DESAFIO, DE PAULO CÉSAR SARACENI, 1965.
Enfim, é uma obra muito bem sucedida em captar o espírito de seu tempo. Acho ideal para dar início a essa série que farei com indicações de filmes que retratem a ditadura militar no Brasil. A seguir, o link do filme que pode ser visto no youtube.
Paulo César Saraceni nasceu no Rio de Janeiro em 1932. Nos anos de 1950 se envolve com crítica de cinema e direção teatral. Seu primeiro curta, Caminhos, foi realizado em 1957, seguido por Arraial do Cabo, em 1960. Em 62 realiza seu primeiro longa, Porto de Caixas, considerado por muitos críticos como marco do início do movimento do Cinema Novo. Integra assim a trindade cinemanovista, junto com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Em 1965 sai seu segundo longa, O Desafio, no imediato pós golpe militar.
Filmado em apenas 14 dias, feito com urgência, espécie de desabafo desesperançado e sem perspectiva daqueles que após o Golpe não sabiam mais que rumo tomar. Na história, Ada é a esposa de um rico industrial, e se envolve em um caso amoroso com o jornalista de esquerda Marcelo, que trabalha em uma revista. Marcelo, sem ter uma atuação política específica, está num bode desgraçado e não consegue ver sentido nem perspectiva no seu relacionamento amoroso. Ele vaga entre a amante, o trabalho e bares, e parece cada vez mais perdido.
Análise do marasmo da classe média e do desbaratino da esquerda que acreditava na renovação do país até então. A expressão da ressaca moral pós primeiro de abril. Em seu livro de ensaios 'Brasil em tempo de cinema', Jean-Claude Bernardet diz:
"... através do uso abundante do diálogo, O desafio não pretende realmente discutir idéias, mas antes caracterizar um certo estado, e, se não insinuar críticas, pelo menos sugerir perplexidades ante tal estado. Pois, se as personagens tanto falam, não é que tenham muita coisa a dizer, pois justamente nada têm a dizer senão expressar sua desorientação; é que elas são dominadas pelas palavras. Para essas personagens que não agem, não fazem nada, a palavra é simultaneamente uma forma de reação e de alienação."
Oduvaldo Viana Filho é Marcelo, que questiona perplexo todos os aspectos da sua vida em face do novo governo militar. É um personagem caracterizado pela não ação, já que passa o filme todo com cara de paisagem ou discutindo política. Não é um personagem com a qual o espectador se identifique totalmente, mas funciona como síntese de toda uma juventude que se viu tolhida de seus sonhos.
Isabella é Ada, burguesa educada, lúcida e bem intencionada que já está de saco cheio da futilidade das elites e mantém um caso com Marcelo. Busca no convívio com o pessoal da esquerda uma realidade mais idealista e com propósito. Passa quase todo o filme tentando ajudar Marcelo a sair de sua fossa gigantesca, mas fracassa, na mesma medida em que é incapaz de entender completamente a crise do amante.
A câmera na mão de Dib Lutfi e a fotografia do italiano Guido Cosulich imprimem a força e a urgência do tema, parece que vemos um documentário político que busca a maior proximidade possível com seus personagens. Para além do tom político um afetivo, uma atmosfera de Antonioni, sobretudo os filmes da incomunicabilidade - do início dos anos 60.
Na época do lançamento, o CEMS/IV suprimiu os seguintes diálogos: 1. "É bom mergulhar na merda"; 2. "Vá à merda"; 3. "Merda"; 4. "Antes do golpe era assim"; e 5. "Agora mais do que nunca, acredito não podermos ser livres". Nas versões remasterizadas do filme, as falas foram repostas por dublagem por terceiros.
É um filme que sofre do mal que acometia o cinema novo: engajamento político num espírito sofisticado, que não é feito para um público mais vasto. Dito isto: que fotografia! E que retrato de uma classe média perdida no vazio! Como um Antonioni politizado criando metafísica de classe!
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