Não há mais espaço para o susto?



Este texto nasceu caduco. E é um descontentamento recente, mais precisamente de 2015, momento no qual é lançado The Witch: A New-England Folktale, de Robert Eggers.

The Witch, 2015. Robert Eggers.


Trata-se de um mal-estar, impregna como uma nuvem negra tempestuosa insistindo em me seguir aonde quer que eu vá, não adianta correr ou se esconder.

Existe uma constante na crítica cinematográfica atual de horror, e por certo ganhou fôlego com a aparição de The Witch. Não é raro perceber em conversas de boteco que filmes como o de Eggers conseguem imprimir um novo tipo de horror, como que descolado de seu passado. Uma produção séria, sem precisar cair no apelo dos “sustinhos” que seriam característicos e matéria-prima para tantos outros filmes. Esta fórmula que se repete pode ser nociva. Corrói o gênero e julga como indigna uma parcela formidável e larga de incursões, cujo propósito também passava pela ideia do susto.
Sob esta perspectiva o divisor está completo: produtos como o de Eggers são sérios, inteligentes e intelectualizados, possuem uma áurea dos sentimentos e imagens profundas e não apenas subprodutos – raspas de estúdios – que não conseguem realizar uma história sem apelar para receitas sem interesse, a rigor, estéreis, bobos.

Estes comentários, sobretudo sobre The Witch, inquietaram-me pelo gosto pessoal que tenho pela cultura cinematográfica. Como podemos em uma única e pretensa frase de efeito desbancar produções como The innocents, de Jack Clayton, 1961, Don’t Look Now, de Nicolas Roeg, 1973, The Evil Dead, de Sam Raimi, 1981, Scream, de Wes Craven, 1996 ou Insidious, de James Wan, 2010, portadores do mesmo mal de esquemas falaciosos para entorpecer o espectador com sustos enquanto o filme em si não vale nada? E isto para ficar apenas com uma indicação por década, que poderia ser melhor e mais explorado, sem dúvidas.


Insidious, 2010. James Wan.


Isto me lembra um fato curioso. James Wan foi aclamado por certa crítica exatamente por esta habilidade com o susto. Não apenas a série de Insidious, como também Dead Silence, de 2007 ou The Conjuring, de 2013, possuem alta qualidade no que se refere ao trabalho com a suspensão do medo. Mas, o diretor ganhou fama por uma outra vertente, relacionada à onda de filmes de tortura. Refiro-me à franquia Saw, o primeiro, de 2004, foi dirigido por ele e fez escola. Em 2005, aparece Hostel, de Eli Roth, e The Torture, de Lamberto Bava. Sem mencionar Dario Argento, que realiza no mesmo ano de 2004 Il Cartaio. Portanto, nestes anos há uma constante e uma proliferação em produções nas quais a tortura é algo almejado por alguns diretores.

The Torture, 2005. Lamberto Bava


Hostel, 2005. Eli Roth



 
James Wan, em uma entrevista para a promoção de seu Insidious, fica um tanto alterado com a questão do sangue e da tortura em Saw:

...Eu quero corrigir: com o primeiro Saw de modo algum tinha muito sangue fluindo. As sequências de Saw foram os que retrospectivamente fizeram todos pensarem que os filmes da sequência são todos violentos e sangrentos... o primeiro Saw se apresenta mais como um suspense psicológico.


Escapa assim de ter seu cinema aproximado ao escopo das facilidades que seriam realizar produções em que sangue, entranhas e pedaços de corpos fossem os grandes protagonistas. Seu cinema, em seu discurso, seria mais elevado, questões psicológicas seriam mais evidentes do que a tortura em si. Um discurso interessante neste sentido, a alteração naquele momento visava enquadrar-se em filmes cuja postura estava atrelada aos longas-metragens de “sustinhos”, hoje temporariamente desprezados. Na época, esse mesmo desconforto apresentado aqui foi sentido. Aliás, onde enquadraria Stuart Gordon, o primeiro Peter Jackson, Herschell Gordon Lewis, por exemplo, senão onde o vermelho, o corpo e as entranhas tinham um lugar especial? Apesar da vertente que excluía produções neste sentido como grandes, eles permanecem em seus tronos: há lugar para todos.

Comentários

  1. Há lugar para todos, sim! Pleno acordo: um dos belos sustos da história é quando aquela vassoura disfarçada de alienígena surge na janelinha de The Man from Planet X, de Edward G Ulmer! O medo no espaço e espaço para o medo!

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