Zwarte Piet, Sinterklaas e o Racismo




A cena é inusitada: crianças brancas de olhos claros com o rosto pintado de preto, no pior estilo blackface. Elas seguram sacolas abertas enquanto esperam doces que são distribuídos por figuras também pintadas de preto, com lábios vermelhos e peruca afro. Trata-se da festa de recepção de Sinterklaas, uma espécie de papai noel holandês.

Sinterklaas (ou São Nicolau) chega à Holanda em meados de novembro. Diz a lenda que no dia 5 do mês seguinte ele sobrevoa a cidade montado em seu cavalo - razão pela qual as crianças colocam cenouras nos sapatos – e distribui presentes e doces para quem se comportou bem. Ainda que muito parecido com o papai noel (os holandeses comemoram os dois natais) há diferenças consideráveis entre os velhinhos para além do dia e da montaria. Por exemplo, Sinterklaas não vem do Polo Norte, mas da Espanha, e a cada ano escolhe uma cidade portuária para adentrar a Holanda. Neste ano, escolheu o porto de Scheveningen, em Haia, onde foi recebido com ares oficiais, no último sábado, pelo embaixador espanhol e pelo prefeito. A partir daí, fez uma longa caminhada pela cidade sobre seu cavalo branco, acompanhado de seu polêmico ajudante: Zwarte Piet. É por causa dele que as crianças pintam seus rostos.





 

Zwarte Piet - ou Pedro Preto – é originalmente um mouro que acompanhava Sinterklaas desde a Espanha. No passado, as mães diziam às suas crianças que Piet sabia tudo o que elas haviam aprontado ao longo do ano, e que as levaria para a Espanha caso não se comportassem bem. No século 19, no entanto, as narrativas sobre a lenda aproximaram a relação entre Piet e Sinterklaas da escravidão. A principal delas, Sint Nikolaas en zijn Knecht (São Nicolau e seu Servo), escrita por Jan Schenkman, ajudou a popularizar a figura de Piet como uma espécie de pajem negro abobalhado de Sinterklaas. É bom lembrar que a Holanda só aboliu a escravidão em 1863 em sua colônias, e que pajens negros são bastante comuns em pinturas da realeza. Basta entrar na Mauritshuis para logo encontrar um retrato de Maria Stuart I com um serviçal negro, feito por Adriaen Hanneman.

Ilustração do livro de Schenkman

Retrato de Maria Stuart I por Adriaen Hanneman em 1664


Nos últimos anos, a prática de se fantasiar de Zwarte Piet tem sido muito contestada pelos movimentos anti-racismo, que organizam diversas manifestações em oposição à celebração. Em 2013, o alto comissariado da ONU para direitos humanos pediu a Holanda que investigasse a ligação entre Piet e a escravidão. Sem sucesso. Pesquisas recentes mostram que pelo menos 75% da população apoia a continuidade da festa nos moldes atuais. 

Apesar disso, desde o ano passado, a prefeitura de Amsterdam adotou uma nova caracterização para o ajudante de Sinterklaas, que mudou de Zwarte Piet para Schoorsteen Piet, algo como “Pedro da chaminé”. Sai de cena a blackface, e surge uma pintura que imita marcas de fuligem na pele, fazendo referência às chaminés pelas quais o ajudante desce para recompensar as boas crianças. Entretanto, em Haia – onde mora o rei e fica o parlamento -, a blackface continua em alta, tanto nos participantes quanto nas figuras oficiais que animam o evento. No último sábado, também havia crianças negras participando da festa. Nenhuma delas estava pintada.





A chegada de Sinterklaas no último sábado


A versão de Piet com fuligem

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