Frans Hals e os modernos (ou como se fazer uma exposição)


Não é novidade que Frans Hals tenha sido uma inspiração para os artistas modernos. O Museu Frans Hals, em Haarlem, cidade do mestre holandês, resolveu explorar essa relação na exposição “Frans Hals and the Moderns”, em cartaz até o final de fevereiro. Fez isso de maneira inteligente, sem forçar explicações e deixando que a obras falem por si próprias, por meio de uma expografia simples e eficiente.

Em vez de eixos temáticos como nomes esdrúxulos nos quais as obras parecem não se encaixar, o museu optou por expor as pinturas lado a lado e deixar que suas relações falem mais ao espectador do que as ideias do curador – no caso, a jovem historiadora da arte, Marrigje Rikken. Para começar, há relações imediatas, como cópias feitas por artistas do período, a exemplo da surpreendente versão de Malle Babbe feita por Gustave Courbet e exposta ao lado da original. Ou a cópia de um dos porta estandartes de uma obra de Hals, Banquete dos Oficiais da Guarda de São Jorge, feita por John Singer Sargent em 1880.

Esquerda: Hals; Direita: Corubet


Em outros casos, as relações se apresentam de modo menos direto, mas nem por isso menos claro. Caso de um retrato do prefeito de Hamburgo, feito por Max Liebermann em 1891, após uma temporada em Haarlem: as semelhanças com os retratos que Hals pintou dos burgomestres de sua cidade são imediatas. Estão na pintura de Liebermann a mesma técnica alla prima, a utilização da cor preta como elemento de coesão sem formar uma superfície opaca, e o dinamismo típico do mestre de Haarlem, que fez com que Manet declarasse que se “alguém entendia de pintura a óleo, esse alguém era Hals”. Ao que parece, o prefeito de Hamburgo não gostou. Manet também aparece na exposição com três obras, entre elas seu Bon Bock, feito depois de uma visita à cidade holandesa.

Max Liebermann, O Prefeito Carl Friedrich Petersen, 1891


Em relação a Van Gogh, há uma breve descrição de sua admiração por Hals, comprovada por trechos de cartas distribuídos pela sala. São acompanhadas por retratos feitos pelos dois artistas, como o retrato de Garoto Sorrindo, de Hals, próximo ao retrato Marcelle Roulin segurada por sua mãe. As obras não precisam da explicação das cartas: o dinamismo das pinturas do moderno também aparece nas pinturas do mestre do século 17, assim como o mesmo espírito de criança irrequieta está presente nos dois retratos. Ele é o vínculo visível, material, que poupa o visitante de um longo texto explicativo.



A mostra é um belo exemplo de como se montar uma exposição sem subestimar o público, e uma maneira inteligente de lidar com noções de formas e estilo que se propagam no tempo, sem precisar recorrer a explicações teóricas obscuras. Em suma: a inteligência do visitante é respeitada e o museu cumpre seu papel - sempre tão negligenciado mundo afora - de gerar conhecimento.

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