Chifres, falos e fantasias



Foliões nos carnaval carioca, 2018. Foto de Henrique Coelho/G1: https://g1.globo.com/carnaval/2018/noticia/fotos-unicornio-cai-no-gosto-dos-folioes-pelo-pais.ghtml

Recentemente imagem do unicórnio tomou o imaginário infantil com produtos diversificados de entretenimento e logo se espalhou como tema para roupas, decorações e fantasias até para adultos. A moda contaminou muitos foliões nos últimos carnavais
Mas essa criatura com um único chifre no centro da cabeça já aparecia na cultura indiana muito antes das festividades carnavalescas. 



Mahabharata de Krishna-Dwaipayana Vyasa começou a ser escrito no século IV a.C. e compreende uma enciclopédia de 18 livros. A obra menciona um andarilho das florestas com as características do unicórnio: “Rishyasringa, dedicado a penitências, sempre passava os seus dias na floresta. Ó rei, havia um chifre na cabeça daquele santo magnânimo e por essa razão com o tempo ele veio a conhecido pelo nome Rishyasringa” (trecho retirado do livro 3 - Vana ou Aranyaka Parva - O Livro da Floresta)
An Illustrated Chronological Biography of Confucius (Kongzi Shengji zhi tu), edição Jifu, adaptada de Sima Qian by Zhu Jianjun, c. 1506. Xilogravura, Acervo: Harvard Art Museums/Arthur M. Sackler Museum, Bequest of the Hofer Collection of the Arts of Asia.

O unicórnio pode ser também uma importante premonição. O nascimento de Confúcio, o grande filósofo da cultura chinesa, foi anunciado por um qilin, uma mistura de dragão com equino que geralmente é associada ao unicórnio. A mãe de Confúcio recebe da boca de um qilin a mensagem de um bom futuro para o filho que nascerá.


An Illustrated Chronological Biography of Confucius (Kongzi Shengji zhi tu), edição Jifu, adaptada de Sima Qian by Zhu Jianjun, c. 1506. Xilogravura, Acervo: Harvard Art Museums/Arthur M. Sackler Museum, Bequest of the Hofer Collection of the Arts of Asia.

Ao ser ferido, o unicórnio chinês é o presságio de algo ruim e anuncia a morte de Confúcio. 




Ilustração do livro Die unbekante Neue Welt de Olfert Dapper, 1673, p. 145. Disponível em: https://archive.org/details/dieunbekanteneue00mont/page/145

A lenda do equino com um chifre também ganhou os viajantes do novo mundo. No século 16 o relato de viagem do alemão Olfert Dapper (1636 -1689) aponta ter encontrado, nos limites do Canadá, animais que lembravam cavalos, com crinas ásperas, um chifre longo e reto na testa.


Martini Francesco di Giorgio. Detalhe da primeira página do Codex De Animalibus, Chastity with the Unicorn (Castidade com unicórnio),1463. Acervo: Convento dell'Osservanza, Siena.

O Renascimento deu um toque especial ao tema. E o unicórnio transforma-se em elemento sedutor. O mundo feminino é atraído pelos encantos do animal que se converte em verdadeiro sedutor das virgens.


Wildweibchen Mit Einhorn (Mulher selvagem com unicórnio). Tapeçaria de Strasbourg, c.1500-1510. Autor desconhecido. Acervo: Historisches Museum, Basel, Suíça.

Na tapeçaria dos séculos 15 e 16 cenas com unicórnios se repetem em muitas peças. A imagem acima, que servia como capa de uma almofada, exibe uma mulher sentada com o unicórnio no colo. No segundo plano a paisagem é repleta de plantas, aves e outros animais que habitam a mata diversificada atravessada por um riacho. Descalça, a modelo usa uma vestimenta que cobre seu corpo, exceto os seios. Os cabelos longos e loiros são adornados por uma coroa de flores. As mãos acariciam suavemente a crina e o chifre do animal.  A boca aberta e olhos estatelados da criatura indicam o efeito hipnotizante dos carinhos da moça.

Altar Antependium "Marienteppich" c. século XV. Tapeçaria, Gelnhausen, Alemanha.

Encontramos gesto semelhante em outra tapeçaria do período. A modelo não é mais uma mulher selvagem, mas uma figura feminina sacralizada. A cena é da Anunciação, mas ao invés de sussurrar no ouvido da futura mãe, o anjo Gabriel usa um chifre para dar a notícia do filho que Maria geraria. Os cães do anjo são contidos pelas coleiras que ele sustenta. Uma pequena cerca separa a virgem do ambiente externo. Maria recebe a notícia sem muito entusiasmo e parece mais entretida com o unicórnio em seu colo. Ela repete o gesto da mão que acaricia o chifre estreito e de comprimento notável.  A criatura a encara com olhos lânguidos e com a boca entreaberta. O unicórnio, como a pomba ou o vento, transforma-se no transmissor da Palavra de Deus, que de tão poderosa pode engravidar a virgem.



A relação do mundo feminino com o unicórnio também é tratada em uma das cenas de A Lenda de  1985. 
Cena do filme Legend (A Lenda), 1985. Direção: Ridley Scott

Ridley Scott cria um cenário bucólico e místico, no qual a protagonista atrai o unicórnio com a suavidade de sua voz. O animal vai ao encontro de Lili, interpretada por Mia Sara, e no momento em que a jovem ganha a confiança do unicórnio, ao ponto de quase ser tocado, ele é atingido por uma zarabatana. O animal ferido é mais uma vez presságio de coisas ruins que acontecem na sequência da trama.  

sala de exibição da exposição The Lady and the Unicorn (2018) na Art Gallery of New South Wales, Australia.

A família francesa Le Viste encomenda seis peças de tapeçaria que foram descobertas somente no século 19 por Prosper Mérimée (o mesmo escritor de Carmen). Parte do conjunto pode ser visto como a representação dos cincos sentidos: olfato, paladar, visão, tato e audição. A sexta peça da série trata das vontades, do livre-arbítrio e talvez não se enquadre muito bem ao tema dos cincos sentidos.

Touch, da série The Lady and the Unicorn, c. 1500, Museé de Cluny, Museé National du Moyen Âge, Paris.

Todas as cenas trazem a presença de uma jovem mulher e um unicórnio, algumas vezes com a adição de outros personagens. Na maioria das peças o animal é apenas um coadjuvante, mas adivinhe em qual dos sentidos ele é mais importante? No tato! A cena apresenta a moça em pé tocando gentilmente o chifre do equino ao mesmo tempo em que segura o mastro de uma bandeira. Poderia o unicórnio ser um substituto para o amante da moça?


Ilustração de Bertram R. Elliott para o livro de Aubrey Beardsley, A história de Vênus e Tannhäuser, edição de 1927.

No romance de Aubrey Beardsley, A história de Vênus e Tannhäuser (1891), o capítulo oito é sobre Adolphe, o unicórnio de estimação de Vênus. O pet é ciumento e tem a exclusividade de receber visitas apenas de sua dona. Pelas manhãs Vênus masturba o unicórnio e bebe seu sêmen como um aperitivo antes do desjejum.


Em alguns idiomas a gíria usada para expressões de sentido erótico se originam da palavra “chifre”. No inglês horn, que significa chifre, recebe um sufixo para originar a expressão que indica desejo sexual (tesão),  horny. Em italiano, a palavra corno (chifre) é o jargão para pênis.



Tribo de Papua-Nova Guiné, imagem de Vincent Prévost.

Tribos da Papua-Nova Guiné têm a tradição de cobrir o sexo masculino com chifres de comprimentos extravagantes. Os chamados horim ou koteka imediatamente lembram os chifres dos unicórnios pelo formato e comprimento.

E claro, se o leitor fizer uma rápida pesquisa na rede vai notar que a indústria dos brinquedos sexuais já explora a relação do chifre do unicórnio com o falo.

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