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Foliões nos carnaval carioca, 2018. Foto de Henrique Coelho/G1: https://g1.globo.com/carnaval/2018/noticia/fotos-unicornio-cai-no-gosto-dos-folioes-pelo-pais.ghtml |
Recentemente imagem do unicórnio tomou o imaginário infantil com produtos diversificados de entretenimento e logo se espalhou como tema para roupas, decorações e fantasias até para adultos. A moda contaminou muitos foliões nos últimos carnavais.
Mahabharata
de Krishna-Dwaipayana Vyasa começou a ser escrito no século IV a.C. e
compreende uma enciclopédia de 18 livros. A obra menciona um andarilho das
florestas com as características do unicórnio: “Rishyasringa, dedicado a penitências, sempre passava os seus dias na
floresta. Ó rei, havia um chifre na cabeça daquele santo magnânimo e por essa
razão com o tempo ele veio a conhecido pelo nome Rishyasringa” (trecho
retirado do livro 3 - Vana ou Aranyaka Parva - O Livro da Floresta)
O unicórnio pode ser também uma
importante premonição. O nascimento de Confúcio, o grande filósofo da cultura
chinesa, foi anunciado por um qilin, uma mistura de dragão com equino que geralmente é associada ao unicórnio. A
mãe de Confúcio recebe da boca de um qilin
a mensagem de um bom futuro para o filho que nascerá.
Ao ser ferido, o unicórnio
chinês é o presságio de algo ruim e anuncia a morte de Confúcio.
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Ilustração do livro Die unbekante Neue Welt de Olfert Dapper, 1673, p. 145. Disponível em: https://archive.org/details/dieunbekanteneue00mont/page/145 |
A lenda do equino com um
chifre também ganhou os viajantes do novo mundo. No século 16 o relato de
viagem do alemão Olfert Dapper (1636 -1689) aponta ter encontrado, nos limites
do Canadá, animais que lembravam cavalos, com crinas ásperas, um chifre longo e
reto na testa.
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Martini Francesco di Giorgio. Detalhe da primeira página do Codex De Animalibus, Chastity with the Unicorn (Castidade com unicórnio),1463. Acervo: Convento dell'Osservanza, Siena. |
O Renascimento deu
um toque especial ao tema. E o unicórnio transforma-se em elemento sedutor. O
mundo feminino é atraído pelos encantos do animal que se converte em verdadeiro sedutor das virgens.
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Wildweibchen Mit Einhorn (Mulher selvagem com unicórnio). Tapeçaria de Strasbourg, c.1500-1510. Autor desconhecido. Acervo: Historisches Museum, Basel, Suíça. |
Na tapeçaria dos séculos 15 e
16 cenas com unicórnios se repetem em muitas peças. A imagem acima, que servia
como capa de uma almofada, exibe uma mulher sentada com o unicórnio no colo. No
segundo plano a paisagem é repleta de plantas, aves e outros animais que
habitam a mata diversificada atravessada por um riacho. Descalça, a modelo usa
uma vestimenta que cobre seu corpo, exceto os seios. Os cabelos longos e loiros
são adornados por uma coroa de flores. As mãos acariciam suavemente a crina e o
chifre do animal. A boca aberta e olhos
estatelados da criatura indicam o efeito hipnotizante dos carinhos da moça.
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Altar Antependium "Marienteppich" c. século XV. Tapeçaria, Gelnhausen, Alemanha. |
Encontramos gesto
semelhante em outra tapeçaria do período. A modelo não é mais uma mulher
selvagem, mas uma figura feminina sacralizada. A cena é da Anunciação, mas ao invés
de sussurrar no ouvido da futura mãe, o anjo Gabriel usa um chifre para dar a
notícia do filho que Maria geraria. Os cães do anjo são contidos pelas coleiras
que ele sustenta. Uma pequena cerca separa a virgem do ambiente externo. Maria recebe
a notícia sem muito entusiasmo e parece mais entretida com o unicórnio em seu
colo. Ela repete o gesto da mão que acaricia o chifre estreito e de
comprimento notável. A criatura a encara
com olhos lânguidos e com a boca entreaberta. O unicórnio, como a pomba ou o
vento, transforma-se no transmissor da Palavra de Deus, que de tão poderosa
pode engravidar a virgem.
A relação do mundo feminino
com o unicórnio também é tratada em uma das cenas de A Lenda de 1985.
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Cena do filme Legend (A Lenda), 1985. Direção: Ridley Scott |
Ridley
Scott cria um cenário bucólico e místico, no qual a protagonista atrai o unicórnio
com a suavidade de sua voz. O animal vai ao encontro de Lili, interpretada por
Mia Sara, e no momento em que a jovem ganha a confiança do unicórnio, ao ponto de
quase ser tocado, ele é atingido por uma zarabatana. O animal ferido é mais uma vez presságio de coisas ruins que acontecem na sequência da trama.
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sala de exibição da exposição The Lady and the Unicorn (2018) na Art Gallery of New South Wales, Australia. |
A família francesa Le Viste encomenda seis peças de
tapeçaria que foram descobertas somente no século 19 por Prosper Mérimée (o
mesmo escritor de Carmen). Parte do conjunto
pode ser visto como a representação dos cincos sentidos: olfato, paladar, visão,
tato e audição. A sexta peça da série trata das vontades, do livre-arbítrio e talvez não se enquadre muito bem ao tema dos cincos sentidos.
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Touch, da série The Lady and the Unicorn, c. 1500, Museé de Cluny, Museé National du Moyen Âge, Paris. |
Todas as cenas trazem a presença de uma jovem mulher e um unicórnio, algumas vezes com a adição
de outros personagens. Na maioria das peças o animal é apenas um coadjuvante,
mas adivinhe em qual dos sentidos ele é mais importante? No tato! A cena apresenta
a moça em pé tocando gentilmente o chifre do equino ao mesmo tempo em que
segura o mastro de uma bandeira. Poderia o unicórnio ser um substituto para o
amante da moça?
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Ilustração de Bertram R. Elliott para o livro de Aubrey Beardsley, A história de Vênus e Tannhäuser, edição de 1927. |
No romance de Aubrey
Beardsley, A história de Vênus e Tannhäuser (1891), o capítulo
oito é sobre Adolphe, o unicórnio de estimação de Vênus. O pet é ciumento e tem
a exclusividade de receber visitas apenas de sua dona. Pelas manhãs Vênus masturba
o unicórnio e bebe seu sêmen como um aperitivo antes do desjejum.
Em alguns idiomas a gíria usada para expressões de sentido erótico se originam da palavra “chifre”. No inglês horn, que significa
chifre, recebe um sufixo para originar a expressão que indica desejo sexual (tesão), horny.
Em italiano, a palavra corno (chifre)
é o jargão para pênis.
Tribos da Papua-Nova Guiné
têm a tradição de cobrir o sexo masculino com chifres de comprimentos extravagantes.
Os chamados horim ou koteka imediatamente lembram os chifres
dos unicórnios pelo formato e comprimento.
E claro, se o leitor fizer
uma rápida pesquisa na rede vai notar que a indústria dos brinquedos sexuais já explora a relação do chifre do unicórnio com o falo.
Incrível essa história da Aubrey Beardsley!
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