Na história da arte japonesa existe
o termo yōga, que é a abreviação de Seiyoga, que significa pintura
ocidental. A palavra é utilizada para
expressar um estilo de pintura, desenvolvido durante a segunda metade do século
19 e que se estende até o século 20. Sucintamente, yōga era um estilo que utilizava características da arte ocidental
para compor cenas do mundo oriental. É nesse período que o imperador Meiji
institucionaliza a entrada de técnicas europeias para produzir arte. Mesmo
consciente de que a Europa era considerada uma rival, a cultura japonesa parece
ter abraçado o projeto de valorizar o estilo estrangeiro, especialmente nas
pinturas.
O jovem imperador Meiji passa a ser o garoto propaganda
dessa “iconografia ocidentalizada”. A representação do imperador japonês, que
liderou a nação durante os anos de 1867-1912, é um bom exemplo das mudanças que
foram implementadas para que sua imagem passasse a exibir um homem alinhado ao
mundo ocidental.
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Uchida Kuichi. Retrato do Imperador Meiji, fotografia, 1872. Acervo: Meiji
Shrine, Tokyo.
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Uchida Kuichi, Retrato do Imperador Meiji, fotografia, 1873. Acervo: Museum of History, Kanagawa. |
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Takahashi Yuichi, Retrato do Imperador Meiji, óleo sobre tela, 1879. Acervo: Imperial
Household Agency, Tokyo.
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Ao compararmos as poses e as vestimentas dos retratos
produzidos ao longo do período, torna-se clara a vontade de relacionar o chefe
da “família estatal” do Japão com elementos da masculinidade europeia. O
figurino tradicionalmente oriental é substituído pela calça, casacos e adereços
tradicionalmente utilizados nos retratos de militares ou das figuras
monárquicas europeias.
Para os pintores yōga, a forma corporal era o elemento de
maior atenção. Talvez porque dominar conhecimentos anatômicos fosse uma das
principais habilidades da pintura ocidental, mas além disso, moldar o corpo
também garantia alguma aproximação aos padrões da arte europeia, seria um sinal
de modernização, algo tão almejado pelo líder japonês.
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Wada Sanzo. South Wind, 1907. Óleo sobre tela, 151.5×182.4 cm. Acervo: National Museum of Modern Art, Tokyo. |
O quadro de Wada Sanzo (1883-1967)
demarca bem o estilo yōga.
A cena apresenta esse homem ao
centro, em pé, olhando para o horizonte e com a camisa sobre a cabeça, ele domina
a cena com seu físico espetacular. O tronco robusto, as pernas sólidas, braços
torneados e pés firmes que aderem ao solo do barco, constroem um aspecto de
credibilidade. Sanzo, que era um jovem de apenas 24 anos na época, se
interessava completamente por essa forma de representação anatômica. E ao que
parece, esse virtuosismo corporal era esperado pelos espectadores
contemporâneos. Não por acaso, a obra ganhou um prêmio importante na primeira Bunten (Exposição de Belas Artes do
Ministério da Educação japonesa).
As outras três figuras masculinas não possuem semblantes tão
confiantes. Sentados, em posições introspectivas, a composição corporal é
comedida. As roupas feitas de farrapos acompanham o papel coadjuvante dos
personagens. O sol incide sob suas peles, mas ao invés de iluminá-los de modo
glorioso, parece castigá-los com o forte calor que emite.
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Imagem da direita: Michelangelo Buonarroti. Male Nude (recto), 1501-02. Desenho. Acervo Museu do Louvre. Imagem da Esquerda.: detalhe de South Wind, 1907 de Wada Sanzo.
Ao se observar os corpos masculinos das esculturas da antiga
Grécia ou os corpos que aparecem nas obras do Renascimento, o que se encontra
são descrições minuciosas de tônus muscular, volumes, relevos, peles que cedem
ao formato dos músculos, formas alargadas de troncos, braços e pernas. Não
consigo afirmar o exato modelo que serviu de inspiração para Sanzo, mas a
composição do torso de seu herói central se assemelha muito aos troncos rígidos
e delineados feitos por Michelangelo.
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Wada Sanzo com o quadro South Wind, 1907. Fotografia publicada na revista Ukiyo-e Art, 16, (1967), p. 42. Fonte: http://www.myjapanesehanga.com/home/artists/wada-sanzo-1883-1967 |
Uma foto do pintor junto ao quadro é reveladora. A figura do
canto esquerdo da tela, ao fundo do barco, tem muita semelhança com o pintor. Wada
sofreu um acidente de barco aos 19 anos na costa de Izu, que fica a oeste de
Tóquio. A lenda conta que depois de uma tempestade o barco se despedaça. Para
sobreviverem, o capitão pede para todos jogarem as bagagens ao mar e tornar a
estrutura que sobrou mais leve. Wada estava com todo seu material de trabalho e
o capitão permite que o jovem artista permaneça com sua bagagem. Depois disso
Wada Sanzo dedica muito tempo para compor o quadro.
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Charles Wirgman. Young Japan at the U. Y. Club (a fact). Ilustração publicada na revista Japan Punch, jan, 1866. |
O olhar europeu via essa forma de ocidentalizar o corpo
japonês com algum desconforto. Há uma clara intenção de demarcar as diferenças
corporais entre os ocidentais e orientais. Muitas das representações dos corpos
masculinos japoneses, feitas por artistas europeus, eram compostas por figuras pequenas
ou até infantilizadas. O britânico Charles Wirgman (c.1832-1891) publicava a
revista Japan Punch na cidade de
Yokohama. As ilustrações de Wirgman geralmente exibiam japoneses e britânicos
na mesma cena. Na ilustração acima, ele retrata um jovem samurai vestindo
roupas ocidentais, com metade da altura do europeu que está ao seu lado. Segurando
um copo e um cigarro, o pequeno homem diz: “I only like civilization” (Eu só
gosto de civilização). Além da ironia, diretamente dirigida ao julgamento
valorativo de níveis de civilização, o homem japonês é infantilizado ao ser
retratado com um corpo magro e pequeno.
No início da década de 1940 o estilo yōga passou a ser associado com a
pintura de guerra. Militares japoneses recomendaram que alguns desses pintores
mais respeitados vestissem uniformes e viajassem para os locais de batalha. Para
esse propósito as obras yōga eram amplamente preferíveis do que as nihonga (que significava, literalmente,
pintura japonesa). Pintores que tinham sido tão profundamente identificados com
os meios boêmios da inovação yōga na década de 1920, a ponto de se tornarem
figuras limítrofes na sociedade japonesa, redirecionaram sua arte para a
cumplicidade com o militarismo. A partir daí cria-se uma importante iconografia
de guerra da Ásia Oriental.
Em 1942, Asakura Fumio, escultor e professor na Escola de
Arte de Tóquio, publicou textos sobre a identidade japonesa. Seus ensaios lutavam
contra a ideia de que a composição corporal do homem japonês fosse inferior.
Sobre a fotografia acima, publicada no jornal Asahi Shinbum, capturada no
momento em que militares britânicos eram conduzidos por soldados japoneses para
uma reunião que trataria da rendição de Singapura, o escultor escreveu:
“Sobre a recente fotografia publicada de Singapura, vemos
entre os soldados militares britânicos dois ou três oficiais de nosso exército
Imperial. Como os soldados britânicos estão de shorts, podemos ver seus joelhos
que são claramente fracos e frágeis. Enquanto, os soldados comissionados de
nosso exército Imperial, que mesmo usando calças, possuem joelhos muito mais
grossos e fortes do que os dos ingleses”
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Miyamoto Saburo. Fall of Singapore, 1944. Óleo sobre tela, 126.8×158.0 cm. Acervo: National Museum of Modern Art, Tokyo.
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Poucos anos depois, o pintor oficial de guerra do império
japonês, Miyamoto Saburo (1905-1974), recria a mesma a cena da foto. Mas o
pintor parece não aderir ao olhar de Sakura e prefere se concentrar nos aspectos
mais realistas da cena ao invés de transformá-la em propaganda de guerra do
governo.
As coxas e os joelhos dos soldados britânicos são constituídos
por músculos salientes e rígidos, saltam e formam relevos consequência de cada
passada. Atrás do grupo um soldado japonês acompanha a primeira fileira de
oficiais. Com estatura menor que os ingleses, suas roupas largas não favorecem
as formas corporais e só reforçam sua inferioridade diante dos militares
europeus.
Miyamoto Saburo viajou pela Europa em 1938, visitando museus
e igrejas, sua admiração pelos mestres da arte europeia só aumentou. De volta
ao solo nipônico, Miyamoto cultivou dois embates: sua admiração e, ao mesmo
tempo, o confronto contra a longa tradição da pintura a óleo europeia. Esta
dualidade se expressou também nos retratos dos corpos masculinos.
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Miyamoto Saburō. Captives , 1942. Lápis, lápis de cera e aquarelas em papel, 43.5 x 27.8 cm. Acervo: Ishikawa Prefectural Museum of Art, Kanazawa.
Ao observar um grupo de soldados australianos quando esteve
em Singapura, Miyamoto diz:
“A pele branca estava totalmente bronzeada como a cor
vermelha dos tijolos. E seus corpos eram bem construídos, assim se pareciam
como demônios vermelhos. A cena em que esses homens (com seus corpos vermelhos
e bem moldados) envolvidos de forma ordenada com o trabalho manual, em meio a
selva verde ou a plantação de borracha como pano de fundo, foi espetacular, como
se eu estivesse olhando para obras primas de nus renascentistas”
Há claramente uma atração pela fisicalidade dos caucasianos
que o pintor conheceu no campo de batalha e no desenho acima se materializa esse
encanto. Em vez de retratar o inimigo derrotado ou vermelho como um demônio, o
prisioneiro de guerra exibe orgulhosamente seu torso e ainda lança um olhar
determinado para o espectador. Vemos o esforço do artista para dominar um
biótipo masculino que tanto admirava, mas é de fato uma entrega ao que lhe atrai.
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Miyamoto Saburō. Hunger and Thirst , 1943. Óleo sobre tela, 130 x 97 cm. Acervo: Setagaya Art Museum, Tokyo. |
As cenas de terror da guerra também são temas de alguns
trabalhos de Miyamoto Saburō. “Fome e Sede”, de 1943, trata dos limites impostos
ao corpo no cenário de guerra. O soldado com o braço ferido tenta apoiar-se na
beira de riacho. Desconfortável pelas bagagens volumosas que carrega nas
costas, apoia todo peso de seu tronco apenas com auxílio do braço direito. Seu
rosto é ocultado pelo capacete que escorrega de sua cabeça, no entanto, graças
ao reflexo da água, somos testemunhas de seu desespero. No segundo plano, as
bicicletas retorcidas e o soldado agonizando no colo de um companheiro,
completam a cena de horror. O soldado com sede remete ao mito de Narciso, tão
bem retratado por Caravaggio. Enquanto que o rosto aterrorizado refletido no
espelho d’água lembra o rosto da medusa, também criado pelo pintor italiano.
Sejam nos embates ou na adesão apaixonada à arte ocidental,
a apresentação do corpo masculino japonês transformou-se em campo criativo, em
suporte artístico, um verdadeiro instrumento de pesquisa dos artistas yōga.
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