DOSSIÊ FILMES SOBRE DITADURA BRASILEIRA. VI - VOCÊ TAMBÉM PODE DAR UM PRESUNTO LEGAL, DE SERGIO MUNIZ, 1971.
Esse filme tem uma história bastante espinhosa. Filmado clandestinamente entre 1970 e 71 pelo jovem Sergio Muniz, é uma reflexão sobre a atuação do Esquadrão da Morte e do famigerado Delegado Fleury, chefe do DOPS em São Paulo. Foi finalizado somente em 1973, quando foi exibido em alguns festivais europeus e em Cuba. Os amigos do diretor o aconselharam então a não exibi-lo no Brasil, por prudência, já que os assassinos retratados no filme certamente iriam se vingar da equipe. Foi só a partir de 2006 que ele começa a ser exibido em festivais e mostras sobre direitos humanos. Numa entrevista para a revista Aurora, o realizador assim resume essa situação:
A montagem é alma e essência do filme. Seja recortando através de closes os detalhes de imagens mais amplas, dotando-as de movimento; seja pela montagem paralela, colocando em diálogo situações inicialmente não relacionadas. Mesmo hoje há um frescor, uma faísca de invenção que eletriza toda a produção. Objetivo, impressiona pela clareza da situação política do país, feita ali no olho do furacão. O retrato dos esquadrões da morte e de seus membros não é estereotipada, não há necessidade. É antes direta e transparente.
Esse filme tem uma história bastante espinhosa. Filmado clandestinamente entre 1970 e 71 pelo jovem Sergio Muniz, é uma reflexão sobre a atuação do Esquadrão da Morte e do famigerado Delegado Fleury, chefe do DOPS em São Paulo. Foi finalizado somente em 1973, quando foi exibido em alguns festivais europeus e em Cuba. Os amigos do diretor o aconselharam então a não exibi-lo no Brasil, por prudência, já que os assassinos retratados no filme certamente iriam se vingar da equipe. Foi só a partir de 2006 que ele começa a ser exibido em festivais e mostras sobre direitos humanos. Numa entrevista para a revista Aurora, o realizador assim resume essa situação:
"... acredito que meu documentário “Você também pode dar um presunto legal” pode – pelo menos – informar as gerações mais recentes que no Brasil, sim, houve tortura; que no Brasil, sim, se cometeram assassinatos de ativistas políticos; que no Brasil, sim, fizeram “desaparecer” homens e mulheres que se opuseram ao regime ditatorial. Se esses/essas jovens – após verem o documentário - ao menos se derem conta que isso se passou aqui, o documentário já respondeu, minimamente, sua intenção. Realizar esse documentário só foi possível com a colaboração e a solidariedade de amigos/as e companheiros/as no Brasil, França, Itália e Cuba e ficou inédito desde sua realização (1970/1971) até 2006 por sugestão – hoje aceita como sábia – de não exibi-lo no Brasil, quando recebi a primeira cópia (1974), por acreditarem que eu e os atores que dele participaram poderíamos correr risco de morte. Creio que esse documentário (certamente datado) é um dos poucos filmes brasileiros feitos durante a ditadura militar que pode ser classificado como político. Não havia espaço para tratar diretamente esse tipo de tema naquela época. O máximo que tivemos foram grandes metáforas como “Os Inconfidentes” e “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, ou “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues. Mesmo assim, as relações com a censura a que, obrigatoriamente, todos os filmes tinham que se submeter eram tensas, pois os censores de plantão freqüentemente exigiam cortes que mutilavam a obra cinematográfica."
A montagem é alma e essência do filme. Seja recortando através de closes os detalhes de imagens mais amplas, dotando-as de movimento; seja pela montagem paralela, colocando em diálogo situações inicialmente não relacionadas. Mesmo hoje há um frescor, uma faísca de invenção que eletriza toda a produção. Objetivo, impressiona pela clareza da situação política do país, feita ali no olho do furacão. O retrato dos esquadrões da morte e de seus membros não é estereotipada, não há necessidade. É antes direta e transparente.
O documentário utiliza-se de diversos materiais em sua construção - recortes de jornais e revistas, imagens captadas diretamente da televisão, transcrição de depoimentos de pessoas torturadas e fragmentos das obras de teatro "A Resistível Ascensão de Arturo Ui" (Bertold Brecht/Teatro de Arena) e "O Interrogatório" (Peter Weiss/Teatro São Pedro). Othon Bastos faz uma participação como o promotor Hélio Bicudo; Lafayette Galvão interpreta o delegado Sérgio Fleury; e Gianfrancesco Guarnieri é Arturo Ui, o fictício mafioso de Chicago da década de 1930, mas cujas falas são impressionantemente cabíveis na realidade brasileira.
Essa mescla de documentário com teatro filmado e reconstituição flui bem, e é fundamental, já que seria impossível filmar algum integrante do Esquadrão falando sobre suas ações, mesmo que essas falas já houvessem vazado para a imprensa. E os momentos das peças filmadas resumem muitas das situações retratadas no filme, que está disponível no youtube:
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