Filmes de anteontem e de ontem
Ainda sob a epidemia da gripe espanhola, Otto Rippert, pioneiro do cinema alemão, filma em 1919, Die Pest in Florenz - A peste em Florença, superprodução com roteiro do jovem Fritz Lang.
A trama lembra os episódios de A morte cansada, que Lang filmaria em 1921: visão lendária, sem nenhuma preocupação com a História. O arquiteto Willy Hameister reconstruiu a Piazza della Signoria em enorme escala, mas num estado correspondente às últimas décadas do século 16, pelo menos: estão lá o Ercole e Caco, de Baccio Bandinelli, o Perseu, de Cellini, o Rapto das Sabinas, de Gianbologna - mas, curiosamente, não o Davi de Michelangelo. As roupas, porém, sáo do século 15.

A festa da cortesã Julia se passa nos jardins de Linderhof, castelo construído por Luís II da Bavária, apenas 40 anos antes do filme.
Tudo isso é curioso, e importa apenas para assinalar o desligamento de qualquer rigor histórico. Conta o efeito produzido por uma cultura decadentista. Lang teria se inspirado do conto de Poe, A Máscara da Morte Vermelha, e as cenas impressionantes, no final, remetem a esse espírito castigador que ceifa.
Se há enlevo para o espectador nessas sequências finais, creio que o momento mais forte é o da tentação sobre o eremita. O conversor convertido tinha, como tema, uma referência importante: o romance Thais, de Anatole France, transformado em ópera por Massenet. A elevação e o abate da enorme cruz, a substituição do Cristo crucificado pela cortesã são poderosos, retomando temas explorados pelos decadentistas.
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Félicien Rops - 1879 |
Emana de A peste em Florença mais a relação entre prazer e morte, do que entre sexo e punição. Há morte no paraíso, hélas! A Igreja, contrária ao prazer, é antipática, e a cortesã nada tem de perversa. Eros e Tânatos, não crime e castigo.
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Casablanca, de Michael Curtis, também é um filme de confinamento. Sempre pensei se Camus não o teria visto. Ele apresenta semelhanças com o livro, que se passam, ambos, no Maghreb francês. E que também possuem o clima de purgatório, em que todos, ou quase, tentam desesperadamente sair de lá. Embora sejam obrigados a viver um quotidiano quase "normal", que inclui mesmo as diversões.
A fotografia de Arthur Edeson é propriamente sublime, e a luz tem um formidável papel na atmosfera de confinamento sem asfixia. A começar pelo farol que varre a cidade:
Curtis toma os personagens em contínuo movimento, seja coletivo, seja individual. Não em agitação, mas num moto perpétuo que não cessa. Quando não são os personagens se movendo, é a câmera. Figura de uma busca incessante e vazia de sentido.
O confinamento torna a memória mais forte do que o presente ("Play it, Sam"), presente que surge como não vivido de fato, esvaziado de substância, presente no qual a vida se transforma no seu ersatz. Evoca um mundo de autômatos sonhando que foram gente. As intensidades se esvaíram, e os rostos tornaram-se máscaras.
O momento de vibração patriótica soa resignado, como se consciente de uma condição humana condenada ao simulacro.
Proto-existencialista, Casablanca fala de seres desorientados num mundo sem sentido. A bruma que invade a decolagem falseia o destino programado. O avião parte para qualquer lugar, ou para o nada.
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