Da ilha à catedral



Sem muito perceber, na quarentena, você está no último episódio de Zumbo's Just Desserts. Reality australiano, uma competição sobre a criação de sobremesas mais variadas, para alguém que tem antenas de formiga para doces, é tentador. 



Mas, na quarentena, a minha em particular, é momento também da volta. Primeiro os romances, Vendredi ou les limbes du pacifique. Livro de Michel Tournier que havia feito parte de minha juventude, mas não me atingiu com a mesmo impacto. Vendredi, refaz a trajetória de Robinson Crusoé, obra fundamental de Daniel Defoe.



No texto do francês, as mazelas da solidão beirando a loucura é posta de frente até a metade, quando finalmente aparece um outro personagem, que será “batizado” por Robinson de Sexta-feira. Talvez seja a insistência de um romance-filosofia que não se encaixe mais com as expectativas. No entanto, o início do livro é estonteante. Estamos diante dos momentos que precedem o naufrágio, a data, local etc. são firmados e, evidente, não aparecerá mais em toda a estrutura do livro.

Pieter Van Deyssel, o capitão da embarcação Virgine, diz a Robinson momentos antes do desastre: “Crusoé, ele o disse, escute-me bem: guarde a pureza. É o vitriol da alma”. A pureza, essa fagulha de civilidade, tende a ser desmoronada.

Depois, não comento os livros que voltam a todo momento. Mas são inseparáveis as extraordinárias histórias de Alphonse Daudet, Lettres de mon moulin, e com o mesmo ímpeto Tartarin de Tarascon, potentes, críticos e em especial engraçados. Pela intensidade que os escritos de Daudet estão presentes, serão companheiros por muito tempo.



Em terceiro, o romance de Huysmans, Là-bas, agora na excelente tradução de Mauro Pinheiro para a Editora Carambaia, Das profundezas. Delicioso como sempre, o romance apresenta pela primeira vez o herói de Huysmans, Durtal, que figura ainda nos romances En route, La cathédrale e L’oblat. Pode ser entendido como anti-naturalista, logo na primeira página ele desbanca o movimento do qual o próprio Huysmans fez parte. Seguimos a trajetória de Durtal que pretende escrever a vida do famigerado Gilles de Rais. Certamente, a dúvida e os mistérios da vida daquele que lutou ao lado de Joana d’Arc e acabou como um assassino sanguinário, estuprador de crianças e satanista é instigante, mas para um historiador da arte, não há dúvidas que as páginas sobre o retábulo de Issenheim, de Matthias Grünewald estão entre as mais saborosas. Pequena passagem:

“Deslocados, quase arrancado dos ombros, os braços do Cristo pareciam amarrados em toda a extensão pelas cintas retorcida dos músculos. A axila fraturada cedia; as mãos inteiramente abertas, brandiam dedos desvairados que ainda assim abençoavam, num gesto confuso de prece e exprobração; os músculos do peito tremiam, untados de suor; o torso estava raiado pelos arcos das costelas expostas; as carnes estavam inchadas, cobertas de erupções e azuladas, salpicadas de picadas de pulgas, marcadas como por furos de agulhas pelas pontas das varas que, fendidas sob a pele, ainda as rasgavam com suas farpas.”





Ou também sobre a joia de Pierre Bossan, em Lyon, a basílica Notre-Dame de Fourvière:

“Lyon é célebre pela charcutaria, pelas castanhas e pelas sedas; e também por suas igrejas! Todas as partes elevadas de suas ladeiras são sulcadas por capetas e conventos; Notre Dame de Fourvière se sobrepõe a todos. [...] Lá veria a mais extraordinária mistura de assírio, romano e gótico, toda a barafunda inventada, revestida, renovada, soldada por Bossan. [...] Sua nave fulgura de esmaltes e mármores, bronzes e ouro; estátuas de anjos seccionam as colunas, interrompem com graça solene as eurritmias conhecidas. É asiático e bárbaro; faz lembrar as arquiteturas que Gustave Moreau erige em torno das suas Herodíades”




O olhar penetrante e atento de Durtal percebe as mutações do corpo, a mistura da dor, violência, bem ao gosto do final do século XIX, com o misticismo e a religião. É possível pensar na trajetória de Durtal como o avesso daquela de Gilles de Rais. Interessado nas missas negras e tudo o que envolve sua pesquisa para a biografia, Durtal tudo testa, tudo experimenta para no fim, em L’oblat  se transformar em um homem da igreja.

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