
Antonioni - Le amiche (1955)
Numa iluminação clássica, neutra, o grupo de mulheres domina a dinâmica. As paixões, os conflitos, o próprio suicídio, são vistos de fora: não comovem nem envolvem. O fascínio vem das ligações invisíveis que as mulheres mantém entre elas, numa cumplicidade de feiticeiras, excluindo os homens. Classe média elegante, intelectual, concorrência com os homens, que vivem mal o fato de ficarem em segundo lugar.
Numa cena, duas delas ficam felizes: estão num bar, e descobrem que lá tem "supplì" (nome completo "supplì al telefono") do qual já peguei a receita e vou comer hoje à noite.

Descoberta por Gene Kelly, ela estréia em Hollywood com An American in Paris para se tornar, depois, a estrela de filmes hiper-premiados, hiper-oscarizados e hiper-populares: Lili, Daddy Long Legs, Gigi... Contracenou com Fred Astaire, Cary Grant, Kirk Douglas e não sei mais quantos monstros sagrados. Nunca teve, no entanto, a popularidade de um mito. Manteve-se numa reserva que não combina com o estrelato. O documentário mostra seu modo de ser sem histórias, sem vaidades (no sentido de "vejam como eu era linda, deslumbrante, famosa"). Pessoa simpática, decente, inteligente: pela primeira vez eu ouvi alguém associar Busby Berkeley às paradas militares alemãs; suas descrições são certeiras ("Gene Kelly dançava perto do solo; Fred Astaire estava sempre 45 centímetros acima").

Não sei se existe um único film noir ruim. Nunca um gênero artístico concentrou elementos desencadeadores do sentido trágico no mundo contemporâneo. Seiter era um diretor discreto, conhecido por saber levantar a bola para grandes atores, cômicos ou não (O gordo e o magro, Shirley Temple, Irmãos Marx, Fred Astaire, etc.). Este filme é o seu último. Entra na categoria dos contrabandistas, que Scorsese formulou: diretores que, por causa do orçamento reduzido, livravam-se do peso exercido pela produção e atingem uma alta qualidade pessoal. Aqui a atmosfera de pesadelo, com as sombras expressionistas, surge desde o início. A trama é muito original, o suspense e a angústia muito grandes. A história da violência masculina sobre a mulher, e da perseguição feita pelo homem, é muitíssimo atual. Situa-se entre Shadow of a Doubt de Hitchcock e The Night of the Hunter, de Charles Laughton, e numa altura muito próxima dos dois. A musa Dorothy McGuire, tão sincera, digna, discreta, não contribui pouco para a grande qualidade do filme.
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