Dois filmes, muito diferentes, mas explorando o núcleo da sensibilidade feminina ameaçada pela violência do homem e do mundo.
Um é Olivia, do alemão Ulli Lommel (1983). Outro, Secret Ceremony (Cerimônia Secreta, 1968), de Joseph Losey.
Um é Olivia, do alemão Ulli Lommel (1983). Outro, Secret Ceremony (Cerimônia Secreta, 1968), de Joseph Losey.
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Olivia tem algo da dureza germânica de Fassbinder ou Herzog, o olhar abstrato e impiedoso que não quer dulcificar.
Como foi um filme popular, lançado e relançado, destinado a um público nada intelectual, teve vários nomes:
... aka: Beyond the Bridge
... aka: Double Jeopardy
... aka: Faces of Fear
... aka: Im Blutrausch des Wahnsinns (Murderous Frenzy of Madness)
... aka: Mad Night
... aka: Olivia: dulce asesina (Olivia: Sweet Killer)
... aka: Prozzie
... aka: Taste of Sin, A
... aka: Double Jeopardy
... aka: Faces of Fear
... aka: Im Blutrausch des Wahnsinns (Murderous Frenzy of Madness)
... aka: Mad Night
... aka: Olivia: dulce asesina (Olivia: Sweet Killer)
... aka: Prozzie
... aka: Taste of Sin, A
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A ponte de Londres no Arizona. Esta imagem não é do filme. |
Ulli Lommel não se interessa nos vastos espaços. Em Londres, toma a prostituição nas sombras da ponte; nos Estados Unidos, o apartamento, a lojinha para turistas acolhem a câmara.
Com isso, o filme adquire algo de claustrofóbico.
Olivia, na infância, ficou traumatizada pela morte da mãe que ela espiou pela fechadura. A mãe, prostituta, havia recebido um cliente brutal.
Ela, Olívia, também tem um companheiro violento. Um homem vulgar que grita, detesta o cachorro, exige que a mulher fique em casa, não trabalhe e não tenha na vida nada além dele.
Quando pode, Olivia foge, maquiada e vestida com roupas provocantes, à caça de homens. Encontra o arquiteto, distinto e elegante; é perseguida pelo antigo parceiro; meio enlouquecida, ouve vozes de sua mãe. Essas vozes que a perseguem falam de uma história infantil com final feliz e príncipe encantado. A moral, porém, é que o predador é mais forte do que o príncipe.
Mais do que qualquer coisa, transparece a complexidade feminina diante da simplificação agressiva dos impulsos masculinos. O princípio do estupro paira ameaçador ao longo do filme, como se o mundo dos homens violasse, pelo simples fato de existir, o universo das mulheres.
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Em Secret Ceremony, os vínculos entre mães e filhas são tecidos também de maneira desvairada.
Losey é um autor que aliou as práticas do teatro, centrando-se nas cenas poderosas (os "números" de de atores), sem perder o mais verdadeiro sentido cinematográfico. Para esse filme, escolheu um esplêndido palácio art nouveau, edifício histórico de Londres, a Debenham House.
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Debenham House - A imagem não é do filme |
Como em Olívia, a arquitetura tem um papel forte. Mas enquanto neste ela transporta consigo a mesma fatalidade do embate masculino-feminino, igual na Europa e nos Estados Unidos; no segundo, o palácio sublinha a relação deletéria entre os dois personagens.
Robert Mitchum surge como um professor universitário cínico e atraído por garotinhas: é o padrasto de Cenci (o personagem interpretado por Mia Farrow). Sua arrogância, sua perversão, tornam-no asqueroso.
Trecho de uma fala sua:
"Albert: [confrontado Leonora na praia] Você não se parece com minha falecida esposa. Ela era bem-educada e bastante frágil ... exceto por suas famosas tetas- desculpe, é uma piada particular de gosto duvidoso. Ainda assim, às vezes é preciso escolher entre ter bom gosto e ser humano. Você parece mais uma vaca do que minha falecida esposa. Oh, sem ofensa, eu gosto muito de vacas. "Moooo ..." Além disso, ela não tinha primos - peço desculpas, ela tinha um: James. Obviamente, você não é James. O que você quer da minha filha?"
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Elizabeth Taylor e Mia Farrow formam uma dupla improvável. Sem a força dos atores escolhidos, o filme não existiria. Acrescenta-se uma dupla de velhinhas antiquárias, ladras, maldosas, ressecadas pela falta de qualquer afeto.
Filme secreto, confidencial, misturando falso e verdadeiro, a ponto de as duas coisas tornarem-se uma só, a verdade se revelando cada vez mais no falso: é preciso assisti-lo. Nenhuma análise, nenhuma reflexão pode dar uma ideia da força orgânica da relação feminina que ele tece. Como escreveu um crítico: "É absolutamente fascinante e dificilmente descritível."
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