Modos românticos

Não me conformo com as críticas que quiseram ver em L'amour fou (2014), da austríaca Jessica Hausner, uma comédia. Porque a diretora leva a sério sua obra e soube penetrar num sentimento que foi o de um certo romantismo bem característico do universo germânico. Um romantismo intimista, doméstico e discreto, de tendência suicida, derivado de Werther.

Nada de grandes arroubos eloquentes, mas o culto, dentro de si, de sentimentos que levam à morte.




Não é apenas um extraordinário filme, de um ponto de vista cinematográfico, mas uma lição intuitiva de como, nesse início do século 19, as pessoas viviam, na Alemanha o sentimento romântico.

Conta a história de Heinrich von Kleist, poeta que se suicidou com 34 anos, em morte dupla, junto com sua amiga Henriette Vogel. Eles não tinham uma relação amorosa, mas um forte laço espiritual.


A reconstituição histórica, a verdade dos ambientes, do tom, inspiram a convicção. O ator que representa Kleist tem uma impressionante semelhança com seu modelo.

São os rostos, nas imobilidades cheias de tensões interiores, de dúvidas, de receios, que fazem viver essas relações, para nós hoje estranhas e distantes, porém tão autênticas naqueles tempos. A presença da menina, filha de Henriette, com poucas falas, com rosto imóvel mas olhos intensos, abala e comove.



É um filme que evoca imediatamente Rohmer (L'Anglaise et le Duc - 2001), e o modo de comunicar diretamente à alma para além das palavras. 


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Romantismo também, mas tão diferente do anterior, está em Clãs de assassinos (1976, em inglês Clans of Intrigue) realizado em Hong Kong por Chor Yuen. Espantoso romantismo - que não deixa de ter relações com aquele cultivado na Alemanha, romantismo fantástico, lembando E. T. Hoffmann.

É um wuxia (filmes de heróis marciais chineses). Um espadachim de rosto delicado, certa água mágica capaz de envenenar fazendo os corpos incharem, amores homossexuais entre duas mulheres de beleza admirável, traições infinitas, um andrógino, que é tanto homem quanto mulher, e lutas que parecem balés.


A beleza artificial do filme lembra a dos musicais de Minelli.




Não importa o fio muito emaranhado da história. Ela se constrói sobre uma busca, e vai de episódio em episódio, como nos filmes de Tarantino.




Irrealidade de conto de fada. 







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