Mulheres de 17 anos

Muita tristeza, quando se pensa o que era, e o que virou, o cinema italiano. No passado, mesmo um diretor menos conhecido, como Antonio Pietrangeli, fazia parte de um fluxo criador .

Só pela sequência inicial, enquanto os créditos são apresentados, Nata di Marzo (Caprichos de mulher, 1958), já oferece a medida de sua qualidade. Um casalzinho jovem percorre o interior do Sancarlón, escultura colossal de São Carlos Borromeu que mede 30 metros e fica a uma hora de Milão, realizada no século 17: estranheza da sequência.




Jacqueline Sassard, 17 para 18 anos, deslumbrante, encarna Francesca. Ela encontra um arquiteto bem mais velho. Apaixonam-se e se casam.




Francesca é cheia de caprichos e não tem maturidade alguma. Sandro, o marido, está fascinado por ela e, paternal, resiste o quanto pode ao comportamento insuportável da mulher. O filme descreve, com delicadeza e complexidade, o confronto entre afeto e desgaste, as cenas de brigas, os arroubos e arrufos.




Francesca, muito mimada, muito irritante, multiplica exigências e birras. Num momento, quando o marido perde o controle e lhe dá um tapa, tive uma sensação politicamente incorreta de alívio: ela merecia. O tapa situa bem o filme no seu tempo, numa época em que as reivindicações femininas não haviam ainda denunciado a abominável violência dos homens.

Ela se entedia, o marido não quer que vá trabalhar fora de casa, as brigas tornam-se irremediáveis e a ruptura acontece. Quando se separam, Sandro tem um caso com uma vizinha e Francesca quase também tem um. Mas Sandro, embora culpado, não perdoa a infidelidade de Francesca (que mente, confessando o adultério não ocorrido) até quase o último segundo, quando tudo termina bem - por exigência da produção. Como, na verdade, Francesca manteve-se "pura", a honra está salva.




As ondulações afetivas que ocorrem entre os dois situam-se num cenário de classe média otimista. A Itália do pós-guerra enriquecia-se, motorizava-se, havia trabalho para todos.

O casal está mergulhado nesse clima social positivo. Os acontecimentos do quotidiano surgem com precisão justa por uma câmera sempre atenta a captar os lugares e os detalhes, o geral e o particular, a finura da intimidade. 


***


Assisti a Never Rarely Sometimes Always logo depois de Nata di Marzo.  Choque pelo enorme contraste, e  fantástica lição de história. Sua diretora é Eliza Hittman, americana do Brooklin; o filme data de 2020: está na plataforma Prime Video. 42 anos separam os dois, e é como se tivessem sido feitos em planetas diferentes.

Eliza Hittman havia dirigido, em 2016, o duro Beach Rats. Never Rarely Sometimes Always tem um poder maior de concentração, graças à unidade rigorosa de tempo e de ação.

Centra-se em Autumn, uma garota de 17 anos que pertence à classe média baixa e vive  numa cidadezinha rural da Pensilvânia, com a mãe e aquele que parece ser o padrasto, beberrão, de maus-bofes e mau-humor, mais duas irmãs. A casa tem cheiro de tristeza banal, corriqueira e quotidiana.




Autumn é habitada pelo mutismo e a melancolia de tantos adolescentes que, para fugir das infelicidades, fecham-se em si mesmos. Ficou grávida.  Não conta para ninguém, fora sua amiga e prima, Skylar, de olhos claros e lindos. Como em seu estado menores não podem abortar sem a autorização paterna, ambas rumam para Nova Iorque. Lá, consegue fazer o aborto.






Resumida assim, a história parece simples. Mas sua grandeza, que transforma tudo numa epopeia dolorosa, vem de todos os tropeços encontrados, que devem ser vencidos um a um, e são mostrados com minúcia. Autumn tem pouco dinheiro, desconhece as exigências burocráticas que se sucedem, não tem prática de viagens. Sua mala é enorme e pesada, e as duas a arrastam como o fardo da culpa.

Ambas são fotografadas de perto, mas as perturbações periféricas as envolvem de modo perturbador. O mergulho na agressividade movimentada de Manhattan, nada descritivo, tem efeito poderoso.




Enorme opressão que brota do sentimento resignado diante de todos os desconfortos - falta de lugar para dormir, falta de dinheiro para a comida. Sem insistir, o filme não deixa passar o abuso da masculinidade tóxica: o colega que grita "puta", no início do filme, quando Autumn se apresenta cantando no show da escola; o patrão de mão boba; o exibicionista no metrô. Destaca-se, como personagem masculino, um estudante que elas encontram no ônibus, paquerinha de Skylar, e reencontram em Nova Iorque. A relação entre os três sempre é dúbia; mas, enfim, o estudante termina sendo de ajuda.




A força humana do filme está na relação afetuosa das duas amigas. Afeto quase sem palavras e sem gestos, mas que o espectador intui de maneira comovente. Essa é a mágica de Eliza Hittman, que faz perceber tudo no silêncio, sem demostrar, sem sublinhar o que quer que seja. A angústia vem de um fato simples: existir no mundo de hoje. Nada de melodrama, nada além de uma visão que poderia se chamar de antropológica, se a antropologia tivesse as forças da arte.




O título - Never Rarely Sometimes Always - reúne respostas de múltipla escolha que Autumn deve dar  à assistente social, para questões muito íntimas, que tocam nos recantos mais difíceis de seus sentimentos. 

Comentários