Neste nosso mundo de hoje, em que a elegância se tornou tão rara, em que a finura se perdeu, assistir a Mariage de Chiffon (Casamento de Chiffon) é uma felicidade. Falo de elegância autêntica, natural, sem afetação.
No início do século 20, uma jovem de dezesseis anos hesita entre dois homens, um mais velho, outro muito mais velho. Tudo se passa no meio de aristocratas, duques, condessas, de boa cepa, numa pequena cidade de província. Um coronel requintado, um pioneiro da aviação, uma aristocrata adúltera, um pé de sapato que aparece e desaparece, um cachorrinho de estimação.
Como em toda elegância autêntica, os acontecimentos se desenrolam sobre um fundo de melancolia. Há o passado que volta com nostalgia, a juventude que se foi, dívidas que aparecem, e o fato que, num trio, alguém sai perdendo.
Tudo funciona como uma engrenagem perfeita. Isso desde o início: a cena do encontro no escuro, com Chiffon sendo carregada pelo coronel.
O filme se fecha sobre si e sobre o passado. Mesmo o avião não acena para o futuro: ele é o brinquedo de um solteirão sem perspectivas.
Le mariage de Chiffon é perfeito. Foi realizado na França por Claude Autant-Lara, em plena segunda guerra mundial, 1942. O selo Criterium o restaurou e lançou em DVD. O grande poeta Paul Éluard o considerava uma obra-prima.
Claude Autant-Lara foi um grande diretor, hoje bem pouco apreciado. Seu problema maior está em sua biografia.
Claude Autant-Lara era original, imprevisível, anticonformista e provocador. Porém, seus filmes, feitos em estúdio e muito acabados, atraíram os raios da Nouvelle Vague e dos Cahiers du Cinéma. François Truffaut escreveu, contra ele, uma crítica violenta atacando esse cinema de "qualidade francesa".
Lembro que, paralelamente, as jovens vanguardas de outros países, em modo explícito ou não, criaram oposições de mesma natureza: na Itália, o neo-realismo contra o "cinema caligráfico";no Brasil, o Cinema Novo contra a Vera Cruz.
Se fosse apenas uma questão de escolhas artísticas e de gosto, o tempo se encarregaria de aparar as arestas. Autant-Lara, que teve problemas com a censura na época da ocupação alemã na França e na época da guerra da Argélia, que. no passado, esteve próximo dos comunistas, no extremo da vida encaminho seu sentimento de revolta para a pior saída possível.
Com 88 anos, inscreveu-se no Front National, partido de extrema-direita, chefiado por Jean-Marie Le Pen, numa militância que o levou a candidatar-se e vencer as eleições como deputado no parlamento europeu. Além disso, um antissemitismo latente explodiu durante sua velhice da maneira a mais ignóbil e intolerável.
Por vezes, as obras são melhores do que os seus criadores.
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