Out of Bacurau

Diário do confinamento. Filmes de anteontem

Martin Scorsese criou a categoria de "diretores contrabandistas" em seu livro Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano. Aqueles que, fazendo filmes série b, de baixíssimo orçamento, viam-se livres do controle exercido pela grandes produções e obtinham, assim, maior liberdade para as suas ideias e seus gênios. 

Jack Arnold foi um deles. Mestre absoluto da ficção-científica (quem não viu O monstro da Lagoa Negra e O incrível homem que encolheu, corra ver, porque está perdendo duas obras fundamentais). Mas fez também alguns filmes "realistas". Um deles é o estupendo Man in the shadow (no Brasil, O soldo do diabo - 1957). Nele figuravam como atores nada menos que Jeff Chandler e Orson Welles. Ao que parece, precisavam de dinheiro.




A época é contemporânea, e a história é simples. O dono de uma fazenda enorme ("maior que alguns países europeus juntos", diz seu dono), tem uma filha que conversa um pouco demais com um peão bonitinho, imigrado do México. Dois capatazes são encarregados de dar uma lição no rapaz, e o matam. O xerife quer levar o caso à frente. Mas como, na cidadezinha cuja economia depende do rancho?



A situação clássica do herói honesto contra a podridão corrupta, o modo como ele resiste e vence, tão frequente no cinema americano, não é posta, porém, no primeiro plano. O mais importante para Arnold é a descrição social da dominação pelo dinheiro.




A geografia representa um forte papel no filme. Entre o alojamento dos peões e a casa grande, uma cerca e, nela, a inscrição: "Obreros No Son Permitidos A Traves De Esta Cerca". Os imigrantes são sub-humanos. Que importa matar um ou dois? Aliás, alguém lembra que muitos nem estão legalmente nos Estados Unidos. Servem para trabalhar por um salário de miséria, mas não para entrarem na categoria de americanos.




Arnold insiste nas idas e vindas pela estrada entre o rancho e a cidade: é o cordão umbilical que une a ambos, sem permitir, porém, que a legalidade passe pela porteira. A cerca - e é impossível não pensar no muro de Trump - isola os poderosos do mundo inferior que eles dominam.




Jack Palance não encarna um herói forte, como os de Clint Eastwood. E se o twist final, obrigatório pelo código Hays e pela prática de Hollywood, traz a vitória da justiça, ela é precária e não desmente a violência sem regras e sem lei. Antes expõe um mundo em que seres humanos caçam outros seres humanos.

***

Nightmare in Badham County, de 1976, foi o filme que vi logo em seguida ao precedente, e por acaso, tem afinidade ele. Seu diretor é John Llewellyn Moxey, bem obscuro, pelo menos para mim. 

Entra na categoria dos "WIP", ("women in prison film"). Feito para a televisão, seu sucesso foi tão grande que os produtores decidiram lançá-lo nas salas, acrescentando cenas de nudez sadomasoquista entre mulheres, o que o tornou francamente um "exploitation film", destinado ao público que ia ao cinema para ver mulheres peladas.





Isso não diminui sua extraordinária qualidade. A história é assim: duas estudantes da importante University of California, Los Angeles, uma branca, outra negra, vão viajar de férias, no sul dos Estados Unidos. Perto de uma cidadezinha, furam o pneu, e pedem ajuda a uma caminhonete que passa. É um negro que a dirige e que pára. Enquanto faz o trabalho, chega o xerife racista, que não gosta do que vê.




Depois do atrito, na cidade, as moças levam o carro ao borracheiro. Esperam num café; o xerife vem paquerá-las, e elas o tornam em ridículo. Daí para frente, é o pesadelo. Mancomunado com o borracheiro, com o juiz, o xerife as conduz à cadeia (a amiga negra é estuprada pelo xerife na cela), e elas terminam fechadas numa fazenda-prisão, onde permanecem incomunicáveis, sem poderem avisar as famílias.





Não é preciso detalhar os horrores pelos quais  passam. Mas o horror maior de todos possui a  mesma natureza daquele encontrado no filme anterior, de Jack Arnold: como é possível que num país em princípio democrata e livre, essas coisas possam acontecer? Para dar mais impacto, as moças são de boa classe média, estudantes.  Não são imigrantes mexicanas, nem trabalhadoras braçais, sem recursos, e portanto, mais vulneráveis. 

Fico pensando se vi algum filme americano com esse gênero de tema nos últimos anos. Em que a violência ilegal e abominável não está longe (como em Hostel, por exemplo, de 2005, e que se passa na Eslováquia), mas dentro das próprias fronteiras americanas, em que a opressão branca e financeiramente poderosa, é senhora de todos os arbítrios.

Diferentes de Bacurau, esses dois filmes não têm nem as pretensões da metáfora, nem da obra artística. Não denunciam apenas uma forma perversa de colonialismo, do opressor estrangeiro sobre o pobre oprimido nacional, mas atacam a própria estrutura de dominação que está presente em todos os lugares onde o liberalismo corre solto.

Dito isso, Bacurau é um filme de belas qualidades.

Comentários