Creio que não existe coisa mais anos 2000. Um grande sucesso, prêmios, ou indicações para prêmios. Lembro-me de Arnaldo Jabor escandalizando-se: "Isso, obra de gênio, como estão dizendo? No meu tempo, gênio era Bergman, Antonioni, Fellini, não isso aí!" Reconstituo mais ou menos sua frase, como me lembro.
De fato, Borat (2006) foi aclamado. Filme construído em volta do comediante Sacha Baron Cohen, dirigido por Larry Charles (que permaneceria fiel ao ator), lançava o humor cáustico, desrespeitoso, politicamente incorreto que caracterizava aqueles personagens criados por Cohen e deslocados, sobretudo na sociedade norte-americana.
Borat era muito engraçado; Brüno (2009, sempre dirigido por Larry Charles) talvez fosse menos. Ambos eram falsos documentários, o primeiro sobre um pretenso jornalista do Cazaquistão, o segundo vinha definido por seu título alternativo: Brüno: deliciosas viagens pela América com o objetivo de tornar os homens heterossexuais visivelmente desconfortáveis na presença de um estrangeiro gay em uma camiseta de malha.
Eu tinha ido ver os dois primeiros no cinema. Mas deixei passar o terceiro, The dictator (2012, direção ainda de Larry Charles). Creio que ele não fez tanto sucesso quanto os precedentes. Diferente dos anteriores, não é um pseudo documentário: tem um personagem fictício que vive uma historinha. Creio que Sacha Baron Cohen saiu da moda.
Ontem, estava fuçando na lista da (do?) Netflix, querendo encontrar um filme que não fosse nem trágico, nem violento, nem nada que me pusesse para baixo. Tentei The dictator, e ele me pegou desde o início. Sacha Barão Cohen encarna o ditador Aladeen.
Encontrei uma crítica de Roger Ebert que começa assim: "O ditador é engraçado, além de obsceno, nojento, escatológico, vulgar, bruto e assim por diante." Mais: é irônico em relação aos tiranos que ainda pululam sobre a face da terra (se é que um dia vão desaparecer), mas não apenas. Os Estados Unidos também são vítima do humor cáustico. Por exemplo, um policial que deve proteger Aladeen lhe diz:
" - Tenho que lhe dizer que eu não gosto de árabes.
- Bom, porque eu não sou árabe.
- Para mim, tudo que não é os Estados Unidos, é árabe: judeus, muçulmanos, latinos, africanos..."
Mas o melhor momento vem, quando num discurso, Aladeen declara:
"Por que vocês são tão anti-ditadores? Imaginem se a América fosse uma ditadura. Vocês poderiam deixar 1% da população ter toda a riqueza do país. Vocês poderiam ajudar seus amigos ricos a ficarem ainda mais ricos cortando seus impostos. E socorrê-los quando eles jogassem e perdessem. Vocês poderiam ignorar as necessidades dos pobres na saúde e educação. Sua mídia pareceria livre, mas seria secretamente controlada por uma pessoa e sua família. Vocês poderiam pôr escutas em telefones. Vocês poderiam torturar prisioneiros estrangeiros. Vocês poderiam fraudar eleições. Vocês poderiam mentir sobre o motivo de declarar guerra. Vocês poderiam encher suas prisões com um grupo racial específico e ninguém reclamaria. Vocês poderiam usar a mídia para assustar as pessoas e apoiar políticas contrárias aos interesses delas próprias."
The dictator, de Sacha Baron Cohen pertence à mesma família de Duck Soup (O diabo à quatro, 1933), dos irmãos Marx, e de O grande ditador (1940), de Chaplin, em que o riso denuncia, pela farsa, a tragédia do poder.
Comentários
Postar um comentário