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Alair Gomes |
Julien Green foi um escritor franco-americano de expressão francesa. Escritor "clássico" do século 20, que terminou na Académie Française, que ele abandonou depois de 25 anos ausente das sessões. A Académie não aceitou a demissão, porque a imortalidade é para sempre.
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Julien Green no seu escritório |
Além de clássico, de acadêmico, Julien Green era católico.
Não escondia sua sexualidade, que o levava para o mesmo sexo que o seu.
Mas, no ano passado, a coleção Bouquins (E. Robert Laffont), especializada em calhamaços, publicou a primeira parte de seu Diário, que vai de 1919 a 1940, mas sem censura. Green, desde 1930 havia transformado essa escrita do dia a dia em livros, cortando, porém, as descrições obscenas e os comentários - muito elegantes - que poderiam ferir alguém.
O jornal Libération comentou: "Sabiamos que ele era homossexual; ignorávamos até que ponto." E o jornal da igreja católica na França, La vie, dava sua manchete a respeito, com ar escandalizado:
"Era preciso publicar o "Jornal integral" de Julien Green?
Para mim, não há dúvida. Era preciso, era mais que preciso. Porque se suas descrições obscenas são detalhadas, com palavras cruas (a tal ponto que eu não ouso traduzir aqui), elas não são acompanhadas por amor, mas por algo de mais elevado.
Green nunca fala em amor (a não ser por seu companheiro o escritor Robert de Saint-Jean, com quem ele mantinha uma relação de afeto forte e constante, a ponto de incomodar o leitor a frequência com que ele insiste com frases "Robert, eu amo você", "Não conseguiria viver sem Robert", etc.). Relação "aberta", como se diz hoje.
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Robert de Saint-Jean |
Se as descrições sexuais detalhadas não eram acompanhadas de amor, elas eram, porém, carregadas de uma adoração pela beleza masculina, adoração que as transfigura e transcende.
Parece-me haver, neste caso de escrita literária, o mesmo movimento de tropismo acompanhado por veneração, que percebemos nas fotografias de Alair Gomes. Ou nos nus do renascimento florentino.
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Alair Gomes![]() Luca Signorelli |
Suas descrições eróticas têm a mesma qualidade que suas análises de pinturas, por exemplo.
Mais ainda. Green oferece um retrato da vida gay internacional nos anos de 1920/30. Nascido em 1900, ele estava em plena juventude durante o período que este primeiro volume de seu diário recobre. Esses anos emergem como muito mais livres do que os do pós-segunda guerra.
Mais ainda. Green oferece um retrato da vida gay internacional nos anos de 1920/30. Nascido em 1900, ele estava em plena juventude durante o período que este primeiro volume de seu diário recobre. Esses anos emergem como muito mais livres do que os do pós-segunda guerra.
Há também as visões completas de acontecimentos e personagens, que se tornam mais saborosas sem a censura. Entre elas, a projeção de Le sang d'un poète, momento histórico do cinema, que é admirável. E retratos notáveis, como o de Vlaminck e de Gertrude Stein.
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Jean Cocteau - Le sang d'un poète - fotograma |
O diário é espantoso de autenticidade. A frase precisa, sem artifícios, serve ao desejo de fixar o tempo e a realidade vivida, que ele observa e sente. A autenticidade vem da escrita compulsiva (é, talvez, o mais longo diário da história), sincera, da franqueza, da honestidade modesta, sem esnobismo, que constitui a personalidade do autor.
Embora não tenha publicado na íntegra, Green conserva o desejo de que seu Diário um dia fosse oferecido ao público.
"Este diário é de fato a garrafa no mar. Sua natureza o torna quase impublicável durante minha vida. Está aí, a mercê do mais banal acidente. Depois de minha morte, alguns piedosos cretinos talvez o descubram e o joguem no fogo (não sem antes tê-lo lido). Chegará ele aos últimos anos do século?" (5/10/1931)
A presença obsessiva do sexo na obra permite que o leitor acompanhe o modo como isso evolui no espírito do autor. Green não consegue passar um dia sem desejar ou sair para a paquera. Ele conta tudo: tanto o rapaz que ele cobiça, como as aventuras que lhe são narradas por amigos.
É muito próximo de Proust. Apenas, Em busca do tempo perdido se mantém um pouco para cá do limite que Green ousa atravessar. Como em Proust, com mais crueza, os encontros se sucedem, nas ruas, nos banheiros públicos, nos hotéis, no Trocadéro, nos bordéis masculinos, praias, em cervejarias como o Le Select. Com marinheiros, ciganos, prostitutos, árabes.
O que salva o livro, é a intensidade vivida da sexualidade, que a opõe às tediosas descrições, antes enumerações burocráticas de um marquês de Sade. Green conta tudo com um olhar inocente, mas implacável nas observações, sobretudo as que faz sobre si mesmo.
Sua sexualidade evolui. Na juventude plena, saturada de testosterona, ela é límpida. Pouco a pouco, depois dos 35 anos, vem acompanhada de um remorso, porque significa "perda de tempo" de seu trabalho e de sua vida espiritual. Pouco a pouco, a religiosidade se faz mais presente.
***
"30 de abril, 1922. Scriabin, opus 27. Começa por um apelo apaixonado da alma que argumenta consigo própria, uma frase tumultuosa e violenta, que parece interrogar. Depois o movimento se acalma um pouco, e se perde, atrasando-se em reflexões entristecidas, mas logo, com um rugido, a dor desperta e então é uma sucessão de gritos sublimes de esperança e desespero, uma tormenta de clamores, um furor de sons cheios de angústia, de acordes onde a alma aparece estremecida e raivosa, num delírio de sofrimento e de alegria. E, subitamente, um grande silêncio."
"20 de outubro, 1929. Visita ao pintor Vlaminck em sua casa de campo, meio chácara, meio ateliê. Ele é grande e pesado. Em seu largo rosto rosa, o nariz como um bico de águia e os olhos azuis têm alguma coisa de feroz. Mas Vlaminck se mostra extremamente amável e submete à nossa apreciação umas vinte telas que acho muito belas e das quais, aliás, ele está muito orgulhoso. 'Vocês vão ver', nos diz, 'coisas surpreendentes... Hein? Não é bonito o bastante? E é pintura! Vejam isto... e isto, este céu trágico, essa estrada em que alguma coisa vai acontecer... '
Seus comentários me dispensam de fazer os elogios de praxe."
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Maurice de Vlaminck - Paidagem de inverno - 1928 - Masp - São Paulo |
"Segunda, 21 de setembro de 1931. Diário interrompido, por tristeza e nojo de mim mesmo. Tenho, às vezes, uma espécie de náusea moral quando me lembro dos prazeres físicos dos quais minha vida é cheia. Vem então esse retorno sobre mim mesmo que eu conheço tão bem, com breves impulsos para o mundo espiritual. É sempre preciso que, da alma e do corpo, um oprima o outro."
"Quinta, 1º de outubro de 1931. "[...Maritain me diz] 'Tudo desmorona. A Alemanha, desesperada, se lançará talvez numa guerra para perecer mais rápido, sem esperança de vencer.' Esta última observação não me pareceu desprovida de sentido. Seria muito do caráter alemão acender uma fogueira para se atirar nela em seguida."
"Terça, 21 de junho de 1931. Picasso não é prisioneiro de si próprio, mas de sua liberdade. Está condenado a nunca recomeçar a mesma experiência, ele precisa estar mudando a qualquer custo"
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Pablo Picass- Mulher atirando uma pedra, 1931. |
"Domingo, 24 de junho de 1935. [...] Ontem e anteontem no Schwimmbad [piscina - em Viena]. Havia lá multidão de jovens nus, dos quais vários me pareceram muito bonitos. [...] Eu me despi, me estendi ao sol. Lamentei vivamente não ser, eu também, verdadeiramente belo, mas não existe inveja nenhuma na admiração que eu consagro aos belos jovens. Eu lhes sou agradecido por serem belos e há em mim um sentimento próximo da adoração. Eu não recebi a beleza."
"Quarta-feira, 14 de fevereiro de 1935. Mais eu avanço, mais eu me espanto com a riqueza da vida, de tudo o que ela nos oferece a cada dia, de tudo o que nós recusamos. Tantos livros a descobrir, tantas paisagens para olhar, tanta música, e tanto amor."
"Terça-feira, 27 de janeiro de 1931. Em Saint-Sulpice, o Jacó, de Delacroix. Estou sozinho na capela, posso ficar lá o tempo que quiser, olhando até que o traço negro e impaciente que cerne os lutadores comece a se mexer. Como Jacó é belo e como nós o ouvimos com clareza sofrer e gemer de cansaço! O anjo tem a serenidade de um bailarino e há quase afeição no seu gesto; tem o ar de querer acalmar esse agitado, não de abatê-lo."
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Eugène Delacroix - A luta de Jacó e o anjo - 1863 - Igreja de Saint Sulpice |
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