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de outubro de 1918. Recém-chegado à capital, após desembarcar na estação de trens,
boina na cabeça, vestindo um sobretudo e malas nas mãos, um viajante caminha em direção a
uma pensão no centro, quando se vê perdido entre os letreiros da cidade. Italiano
e francês, árabe e chinês, espanhol, inglês, alemão... Nas fachadas ecléticas da
embelezada rua havia placas em todas as línguas possíveis. O mundo inteiro
estava à venda. Notando um guarda em vigília, cassetete na mão pronto para
espantar ambulantes, malandros e mariposas, o viajante se aproxima, perguntando
um tanto quanto confuso:
- Mas, afinal, em que cidade estou eu? Há cartazes em todas as línguas... Isto é...?
- Cosmópolis, cavalheiro – respondeu o guarda policial –; aqui todos mandam e ninguém obedece; mas, atualmente, a única influência séria é a... espanhola.
Calixto
Cordeiro: Na capital do “Paiz de ninguem”. Revista D. Quixote, n. 76, 23
out. 1918.
Eram
os tempos da gripe, e o caricaturista Calixto Cordeiro, com seu lápis esperto e
mente ágil, estabelece um trocadilho com o nome da doença, a influenza
espanhola. Mais significativo que isso é sua sagaz relação entre o
cosmopolitismo carioca dos tempos da Belle Époque e os mandos e desmandos da
política. Seja pela imagem quanto pelos textos, o que parece certo é que no Rio
de Janeiro, capital do “País de Ninguém”, não são os brasileiros aqueles
que possuem alguma “influência séria”. O governo, incapaz de estabelecer medidas
para deter o avanço da peste, só agravava a calamitosa situação, que conduzia a
milhares de mortos.
Apesar disso, a imprensa não o perdoou. E mesmo após dias de sua exoneração, já em novembro, encontramos ilustrações como a do caricaturista Seth na Revista Fon-Fon, que escrachavam a imagem pública de Seidl. Bom lembrar que por certo tempo a doença foi denominada inclusive com seu nome, "mal de Seidl".
Seth:
A semana de “Fon-Fon”. Revista Fon-Fon, n. 45, nov. 1918.
A
razão deste texto, no entanto, advém de uma maravilhosa ilustração na Revista D.
Quixote de fins de outubro, realizada pelo grande Calixto Cordeiro. Nela,
sátira, política e imensa cultura se unem para estampar estrondosamente a capa
daquela edição. É uma obra que atualiza a tradição clássica; remonta a outra
obra, separada de Calixto por mais de 400 anos: a Divina Comédia, de
Dante Alighieri. Cerchio Nono, Giro Secondo: Traditori della Patria é o
título da ilustração de Calixto, remetendo diretamente às visitas de Dante, guiado
por Virgílio, às profundezas do Inferno. Entre escarpas rochosas, de ângulos
agudos e traços febris, Dante se curva à frente de seu guia para observar o
sofrimento de um culpado – ou seria uma vítima? – no último círculo do Inferno,
o nono, onde habita toda a sorte de traidores.
- E este, mestre? – pergunta ele acerca dos motivos que levaram aquele sofredor à região mais profunda do Inferno, onde se encontram os mais graves pecadores.
- É também um traidor – responde Virgílio –; confiaram-lhe a guarda de uma cidade e ele deixou entrar o inimigo devastador.
Calixto
Cordeiro: Cerchio Nono – Giro Secondo. Revista D. Quixote, n. 77, 30 out. 1918.
O
Virgílio moderno de Calixto refere-se a Carlos Seidl, cuja fisionomia é
bastante característica. Trata-o por traidor da pátria por não ter tomado
providências quando os primeiros casos de gripe espanhola surgiram nos portos
brasileiros. Permitiu assim que entrasse o inimigo.
Fotografia
de Carlos Pinto Seidl.
No
Inferno de Dante, o círculo nono é formado pelo lago congelado Cocito, dividido
em quatro partes, ditas esferas, que separam em gravidade os tipos de
traidores: há aqueles que traíram os parentes, a pátria, os hóspedes e seus
benfeitores. O sofrimento dos pecadores consiste em uma maior ou menor porção
do corpo submersa no lago congelado, desde “apenas” abaixo do tronco até todo o
corpo, sempre conscientes. Encontram-se ali, dentre outros, Caim, o Conde Ugolino
– eternizado nas esculturas de Carpeaux e Rodin –, Brutus, Cássio, Judas e o
próprio Lúcifer. Só cidadãos de bem.
Nota-se
então algo de errado na ilustração de Calixto Cordeiro. Seidl não é
representado com a cabeça para fora do gelo, mas em uma espécie de
alcova fumegante, de onde ele observa subir do fundo espessa fumaça; suas mãos
tensas cravadas sobre os ombros indicam a sua agonia. Pois se Calixto acertou o
círculo do Inferno de Seidl, parece ter se equivocado na representação do
sofrimento que lhe caberia, ilustrando não o nono, mas o sexto círculo, onde
sofrem no fogo os hereges – como Epicuro.
As edições de A Divina Comédia do século XIX, a partir da brilhante iniciativa de Gustave Doré, deram visualidade a todo esse imaginário proposto por Dante Alighieri com ilustrações de cada um de seus cantos. A partir delas, podemos comparar os sofrimentos dos círculos sexto e nono produzidos pelo francês com a ilustração de Calixto, de 1918. É muito provável que a referência visual do caricaturista fosse de fato Doré. Tanto a composição, com o pecador no primeiro plano à esquerda e os protagonistas atrás à direita, quanto a paisagem do local, com as mesmas montanhas rochosas, sugerem essa aproximação.
Gustave
Doré: ilustrações para os Cantos X e XXXII do Inferno. In: ALIGHIERI, Dante. The vision of Hell.
Cassel & Company, 1892.
Teria
Calixto de fato errado, ainda que trabalhando com uma referência tão próxima?
Não é possível descartar essa hipótese, porém não acredito no engano. Expressar-se
sobre o Inferno sem mencionar o fogo – essa referência que ao menos hoje nos é
tão coletiva, e que suponho que já assim fosse no início do século passado – talvez
pudesse causar estranheza aos leitores da D. Quixote, decerto nem todos, por sua vez, leitores de Dante. Assim, ao subverter a relação entre texto e imagem, Calixto
Cordeiro poderia ter almejado, em excelente estratégia, uma maior identificação com o seu leitor.
Já
para Seidl não deve ter sido nada agradável ver sua cara estampada na revista
ardendo em alcovas de fogo, mas creio também que estivesse pouco preocupado se
deveria ter sido representado congelando no lago Cocito. Bode expiatório ou não
do Governo, tendo ou não agido, ou tentado agir, contra a proliferação da
epidemia, pediu honradamente a sua exoneração, o que poderia ter sido levado em
conta pela imprensa.
Se a partir do caso contado o leitor dessas linhas recordou-se
de algum(ns) de nossos ministros da Saúde no Governo atual, deixo-lhe livre para elencar as semelhanças de tal associação. A mim, o autor, concentro-me em fantasiar a
qual círculo dantesco o nosso real problema, o nosso Venceslau Brás, deveria
ser enviado.
Sandro Botticelli: Mapa do Inferno, 1480-90.
Biblioteca Apostólica Vaticana.
(1) Para uma pequena biografia de Carlos Seidl,
clique aqui.
(2) A dissertação de Adriana Goulart é uma ótima
leitura para quem deseja saber mais sobre a Gripe Espanhola no Rio de Janeiro e
está disponível online: Um cenário mefistofélico: a gripe espanhola no Rio deJaneiro.
Aos curiosos:
- E-book de A Divina Comédia em português,
tradução de João Pedro Xavier Pinheiro.
- Site com todas as ilustrações de Gustave Doré para a
Divina Comédia.
- Considerações sobreos desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comedia, tese de Paula
Vermeersch.
Curioso ver como a Divina Comédia de Dante era entendida e incorporada também em alguns textos desse período. Escritores como Lima Barreto e Olavo Bilac relacionaram o inferno de Dante com o Hospício D. Pedro II, posteriormente, Hospital dos Alienados.
ResponderExcluirParabéns ao autor.
Amo as obras de Dante, em especial "A Divina Comédia", o seu texto é interessantíssimo, não sabia dessa relação da obra de Dante com obras de artistas brasileiros. Enfim, seu texto é ótimo e esclarecedor. Muito obrigada!
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